Chile vive dia de calma; mas tensão continua Do enviado especial ROBERTO LAMEIRINHAS5/Mar, 16:17 Santiago, 05 (AE) - Um dia depois do choque entre alguns militantes de esquerda e a polícia chilena - no encerramento de uma marcha da qual participaram cerca de 4 mil pessoas em protesto contra o retorno de Augusto Pinochet ao Chile - - a temperatura política parecia ter baixado um pouco na capital, Santiago. Na frente do Palácio de La Moneda, local da escaramuça, não havia ativistas. Desde quinta-feira, quando Pinochet iniciou a viagem de volta da Grã- Bretanha, após ter sido libertado de uma prisão domiciliar de 503 dias, centenas de manifestantes permaneciam ali gritando slogans como "ni olvido (esquecimento) ni perdón, Pinochet al paredón". O conflito de sábado começou quando a grande maioria dos participantes da marcha já tinha se dispersado pacificamente. De acordo com o advogado das organizações de direitos humanos Hugo Gutiérrez, seis pessoas foram detidas e uma - um fotógrafo do jornal La Nación do Chile - ficou ferida levemente. Os policiais utilizaram blindados leves e um grande contingente para evitar que um grupo de ativistas reocupasse a praça após a marcha. Foram disparados jatos de água contra os manifestantes, que reagiam atirando pedras e latas de refrigerante contra o cordão de isolamento. Os carabineros não hesitaram em usar seus cassetetes. Procuradas pela reportagem da AE, os oficiais do comando do Corpo de Carabineros recusaram-se a comentar os incidentes. Mas, sob a condição de que não fossem identificados, alguns soldados justificaram a repressão afirmando que haviam sido agredidos pelos manifestantes. "É a mesma gente de sempre, são nossos velhos conhecidos", disse um deles. Hoje, dezenas de policiais patrulhavam a praça, que tinha todos os seus bancos vazios. Apenas um grupo de turistas, ao lado de uma van, aproveitava o domingo ensolarado para fotografar a fachada do palácio coberta por um véu negro - o La Moneda está em reforma para a cerimônia de posse do presidente eleito Ricardo Lagos, neste sábado. Em outro ponto da cidade, no exclusivo bairro de La Dehesa, Pinochet almoçava com a mulher, filhos, netos e bisnetos em sua residência. A quantidade de apoiadores que se concentrava ali nos dois últimos dias também tinha diminuído. "Domingo é um dia de descanso, de passear com a família, e até nós, chilenos, temos mais o que fazer além da política", resumiu o administrador de empresas Alejandro Tintero, que levava os filhos para assistir à final de um torneio de tênis entre Gustavo Kuerten e o argentino Mariano Puerta. "Hoje é dia de torcer para o Brasil", acrescentou, buscando ser simpático à reportagem. A situação de tranquilidade, porém, pode voltar a acirrar-se amanhã, com a abertura da fase mais importante do processo criminal movido contra Pinochet no Chile pelo juiz da Corte de Apelações de Santiago Juan Guzmán. Além dessa, outra dúvida é fator de tensão. O governo chileno teme que Pinochet reassuma seu cargo de senador vitalício e compareça, no sábado, à cerimônia de posse de Lagos, o que seria interpretado como uma nova atitude desafiante dos militares. A primeira ocorreu na chegada do ex-ditador ao aeroporto de Santiago. Ignorando as recomendações do governo do presidente Eduardo Frei para que Pinochet tivesse uma chegada discreta, altos oficiais militares - entre eles o comandante-chefe das Forças Armadas, general Ricardo Izurrieta - e simpatizantes do general organizaram uma recepção cerimoniosa, embora rápida, para o ex- ditador. A banda da Escola Militar executou as marchas Érixa e Lili Marlene - as preferidas de Pinochet, tocadas nas datas cívicas do regime militar e associadas às tropas da Alemanha nazista durante a 2ª Guerra. No sábado, Lagos fez uma dura advertência aos militares. "Durante meu governo, as Forças Armadas terão de demonstrar seu respeito total às regras democráticas e passar ao mundo a certeza de que são disciplinadas, obedientes e não-deliberantes", disse, numa improvisada entrevista coletiva. "O que vimos na recepção a Pinochet não foi bom para o Chile. Basta ver os diários internacionais para constatar esse fato." Familiares de Pinochet dizem que ele tem demonstrado uma boa recuperação desde seu retorno ao Chile. Na verdade, as últimas imagens do general têm mostrado um homem muito menos moribundo do que fazia supor o relatório médico no qual o ministro do Interior britânico, Jack Straw, se baseou para frear seu processo de extradição para a Espanha - onde o juiz de instrução Baltasar Garzón pretendia levá-lo aos tribunais pelos mais de 3 mil mortos e desaparecidos durante o regime militar, de 1973 a 1990. O geriatra chileno Juan Carlos Molina, ouvido pelo jornal chileno Las Últimas Noticias, encontrou vários equívocos na perícia realizada pelos médicos britânicos. Segundo os exames de Londres, Pinochet sofria de hipotensão ortoestática, que causa tontura, mas ele movimentou e sustentou-se em pé por vários minutos, apenas com a ajuda de uma bengala, durante sua chegada. "A recuperação do general Pinochet corresponde à de um paciente em condições muito melhores do que a demonstrada pelos exames britânicos", disse. "É possível que a chave dessa divergência esteja num erro básico de procedimento: os exames foram tão exaustivos (duraram seis horas) que fatigaram Pinochet e fizeram com que seu rendimento fosse menor."