Santiago, 19 (AE) - O Chile quer ser membro pleno do Mercosul, mas só poderá integrar-se politicamente ao bloco, disse hoje (19) o presidente eleito do Chile, Ricardo Lagos. Segundo Lagos, é impossível que o Chile se integre economicamente agora, porque teria que elevar suas tarifas externas para alcançar as tarifas comuns de importação do Mercosul, que são mais altas.
Lagos propõe que o Mercosul torne-se mais ativo politicamente, por exemplo representando a região junto ao Grupo dos Sete Países Mais Industrializados (G-7), e nesse sentido o Chile poderia ser membro pleno do bloco. "O presidente Cardoso (Fernando Henrique Cardoso) comentou comigo que tinha mandado cartas ao G-7, e que na primeira vez informaram ter recebido, mas na segunda não." Outro exemplo seria conduzir juntos negociações como a que se houve entre Estados Unidos e Europa para avaliar um negócio entre duas grandes empresas aeronáuticas.
"Temos que falar com uma só voz ou não seremos escutados internacionalmente", disse Lagos, em entrevista à Agência Estado e a alguns jornais internacionais no seu comitê de campanha, na avenida Providencia, no centro de Santiago.
Entretanto, Lagos descartou a possibilidade de integração econômica ao bloco a curto prazo: "Todos os países estão comprometidos com a baixa de tarifas de importação, seria um absurdo se o Chile tivesse que aumentar suas tarifas externas para fazer parte do Mercosul".
Lagos afirmou que acredita que terá maioria para fazer mudanças significativas na constituição chilena, que ainda tem "enclaves" não democráticos, entre eles, segundo Lagos, a proibição de que o presidente mude o comando das Forças Armadas e a existência de senadores não eleitos. "Agora é um bom momento para fazer essas mudanças, porque com essa votação que a direita teve acha que poderá ganhar as próximas eleições, e será favorável a uma constituição mais democrática". Lagos também lembrou que Joaquín Lavín, durante sua campanha, concordou com a necessidade de mudar a constituição. Além das mudanças constitucionais, Lagos espera conseguir também durante seu mandato que seja aprovada a lei de divórcio, que está parada há algum tempo no Parlamento.
Pinochet- Lagos não quis afirmar que o general Pinochet tenha perdido toda sua influência política no Chile. "Alguém já disse que não há cadáveres políticos", afirmou, lembrando que quando morava nos Estados Unidos (o presidente eleito cursou universidade neste país) chegou a afirmar que Nixon era um cadáver político depois que duas derrotas seguidas, na eleição presidencial contra Kennedy e numa eleição na Califórnia. "Seis anos depois ele era presidente dos Estados Unidos".
"Mas no caso do general, a eleição presidencial deixou claro que a direita tem um líder que é Joaquín Lavín e não Pinochet". O presidente voltou a dizer que o seu papel em relação ao caso Pinochet é de garantir a independência do poder judiciário e que os tribunais decidirão se ele deve ser julgado ou não.
Lagos não acredita na possibilidade de reações extremadas de setores da direita chilena se Pinochet for julgado no país. "Acho que seria lamentável se isso ocorresse, porque nosso argumento ao mundo é de que podemos resolver nossos problemas sozinhos".
Afirmou que os processos contra Pinochet no Chile são recentes porque mudou há pouco tempo a interpretação da Lei de Anistia pela Corte Suprema, o que permitiu que alguns delitos, como o de sequestro, que ocorreram durante esse período não fossem considerados como anistiados.
Reforma trabalhista - Lagos diz que está tentando convencer o empresariado dos benefícios da reforma trabalhista que será seu primeiro projeto no governo. Uma das principais medidas da reforma será a criação de um seguro desemprego. Lagos argumenta que não estará engessando o mercado de trabalho, que é flexível no Chile em relação a demissões, e que essa flexibilidade precisa ter uma contrapartida social. "Temos que criar o seguro desemprego agora que a economia está crescendo e não quando o desemprego está em alta".
Lagos quer aumentar os gastos com educação e saúde, que deverão ser financiados com aumentos de receita oriundos do crescimento econômico do país a partir do ano 2000, e diminuir gastos militares. Uma das alternativas para reduzir os gastos das Forças Armadas é a solução de conflitos que o Chile mantinha com a Argentina e com o Peru, que segundo ele ajudam a reduzir os gastos militares.
Lagos disse ter se emocionado com sua volta ao palácio La Moneda como presidente, 30 anos depois da eleição de Salvador Allende, e afirmou que pretende avançar no assunto de direitos humanos em seu governo.
Durante a entrevista, Lagos relembrou sua amizade com Fernando Henrique Cardoso, que data da época que o presidente brasileiro morou no Chile. No escritório do comitê onde Lagos deu a entrevista, há uma estante de livros com porta de vidro onde se pode ver uma cópia do programa de governo de Fernando Henrique.

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