Santiago, 3 (AE) - O racionamento de energia elétrica no Chile, devido à falta de chuvas, está provocando perdas de pelo menos US$ 10 milhões por dia para o país. Desse valor, cerca de US$ 2 milhões correspondem ao comércio, de acordo com a Câmara Nacional de Comércio do Chile. Em função disso e do elevado número de protestos da população, as distribuidoras reduziram de três horas para uma hora e meia por dia os cortes de energia em diferentes regiões de Santiago.
O racionamento começou no dia 2 de março, quando uma onda de seca afetou as hidrelétricas das principais companhias geradoras de energia no país, entre elas a Endesa, a Gener e a Colbún, esta última ainda controlada pelo Estado.
Os cortes de energia atingem praticamente a totalidade das atividades econômicas da região metropolitana de Santiago e são feitos em diferentes horários e bairros no decorrer do dia e da noite. A programação dos cortes é alterada semanalmente.
A partir de hoje, por exemplo, o prefeito de Santiago determinou que os avisos, outdoors e a iluminação externa de prédios públicos e privados terão de ser apagados nas 24 horas do dia enquando dure a crise de energia. Até há pouco tempo, um dos únicos países latinoamericanos a adotar medidas semelhantes, porém, por razões diferentes, era Cuba.
Mas agora os chilenos estão sendo afetados por esse fenômeno pouco comum em nações em desenvolvimento com o Chile, considerado nos últimos anos "o exemplo latinoamericano" e citado como modelo econômico em toda a região.
"É bom saber que estamos com problemas de energia", é o primeiro alerta que os motoristas de taxi fazem aos estrangeiros logo depois de desembarcar no aeroporto da capital chilena. A mesma recomendação, acrescida de instruções escritas é feita na recepção dos hotéis. "O hotel conta com gerador próprio que permite alimentar a iluminação - mas naõ as tomadas - e deixar em operação um elevador", diz um pequeno comunicado. Ou seja, quem tiver de usar um aparelho, como um notebook por exemplo, terá de esperarar até a energia voltar.
Além do impacto do "blecaute" na população, que reclama da falta de chuvas no país, os constantes cortes de energia estão afetando as vendas e o armazenamento de produtos perecíveis no comércio. A isso soma-se ainda a forte queda da produtividade das indústrias em decorrência da política de ajuste econômico chileno para enfrentar a crise internacional.
De acordo com a Câmara de Comércio, as vendas do comércio no primeiro trimetre deste ano foram 5,3% menores às registradas no mesmo período do ano passado.
Investimentos - O racionamento de energia elétrica está afetando tanto que os chilenos já saíram às ruas em protesto contra a venda da Endesa chilena à Endesa de Espanha (EE). A discussão desse negócio que envolve cerca de US$ 2,5 bilhões parece ter sido levada ao plano política, já que os espanhóis nada tem a ver com falta de chuvas no país, que provocou um crise energética jamais vista no país.
O Grupo Eneresis - agora controlado pela espanhola Endesa, quer passar a controlarar 60% da chilena Endesa, que não tem, até agora, relação jurídica alguma com a companhia espanhola. No Brasil, Eneresis controla, por meio da Chilectra, a Cerj e a Coelce - disse recentemente que futuros investimentos para aumentar a produção de energia dependiam de aumento de tarifas por parte do governo, que não quer autorizar.
"É inaceitável ter privatizado os lucros e agora socializar as perdas", protestou o presidente Eduardo Frei na semana passada diante da posição das empresas de geração elétrica. Ele disse que a crise energética colocou em risco o prestígio do investimento privado nos serviços públicos. "Aqui existe uma ética e um conjunto de valores que os empresários devem preservar se não desejam desprestigiar o papel da iniciativa privada em um setor tão sensível como esse", acrescentou.
Diante desse enérgico pronunciamento, as empresas geradoras se comprometeram, neste final de semana, a fazer esforços para reduzir e, eventualmente, eliminar o racionamento nas próximas semanas. Para isso, entretanto, as companhias terao de gerar pelo menos mais 500 mmegawatts para incorporar essa energia oa Sistema Interconectado Central (SIC), que cobre 90% da população do país.
O presidente chileno disse ainda que as empresas têm um dever social que não pode ser esquecido quando são responsáveis pelos serviços públicos. Frei acrescentou ainda que as empresas chilenas vêm investindo grandes quantidades de recursos em países da América Latina, entre eles o Brasil, mas era hora que investissem no Chile. A Endesa de Espanha está presente na América Central, Colômbia, Peru, Venezuela, Argentina e Brasil.

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