Chile dividido celebra diversamente um ano da prisão de Pinochet
Santiago do Chile, 15 (AE-ANSA) - Partidários e detratores de Augusto Pinochet celebrarão amanhã no Chile com ânimos bem opostos um ano da detenção do ex-ditador, sob uma vigilância redobrada nas principais cidades do país.
Pinochet, que completa 84 anos no dia 26 de novembro, viajou em setembro do ano passado para a Grã-Bretanha onde foi submetido a uma intervenção cirúrgica e, enquanto se recuperava, foi detido pela Scotland Yard no dia 16 de outubro. A polícia britânica o prendeu por ordem da justiça espanhola, que solicitou a extradição de Pinochet para julgá-lo por violações aos direitos humanos durante o regime militar (1973-90).
As ameaças do anunciado renascimento do movimento de ultra-direita Pátria e Liberdade com cerca de 3.800 membros ativos, segundo alguns analistas, constituem uma grande incógnita para o governo.
Até agora o grupo foi responsabilizado por jogar coquetéis molotov contra bancos e ameaçar de morte destacados políticos socialistas, ao que se somou na quarta-feira um ataque à empresa Telefônica, de capital espanhol.
"Mãos espertas", segundo fontes do ministério do Interior, cortaram a fibra ótica entre duas localidades no sul do país e deixaram milhares de pessoas sem serviço telefônico.
Os líderes atuais do grupo, Sergio Rezzio e Víctor Grez, esclareceram que amanhã só vão fazer alguns protestos e ações não-violentas..
A polícia suspeita que por trás do movimento estejam se rearticulando ex-agentes da Central Nacional de Informações (CNI), a polícia repressiva do regime militar.
A Fundação Pinochet conclamou os chilenos a "estender as mãos para Pinochet" e convocou uma reunião fora de sua sede, no setor alto de Santiago. De lá planejam ir para a catedral do Exército, onde haverá uma missa pela melhora da saúde debilitada do ex-militar, e por seu "imediato e honorável" regresso de Londres.
O partido opositor de direita Renovação Nacional, presidido pelo ex -ministro do governo militar, deputado Alberto Cardemil, hasteará a bandeira a meio-pau em sua sede partidária.
No congresso, que está em sessão extraordinária para ratificar a reforma constitucional que fixa o segundo turno para as eleições presidenciais de 16 de janeiro, os parlamentares de direita aproveitarão para repudiar a detenção de Pinochet.
A Assembléia Nacional pelos Direitos Humanos por sua vez convocou um grande "Carnaval pela Justiça" na rua Alameda, a principal avenida da capital.
O grupo Familiares de Detidos Desaparecidos entregou hoje uma carta ao presidente Eduardo Frei discordando das razões humanitárias invocadas pelo governo para trazer Pinochet de volta ao Chile. Durante a ditadura encabeçada pelos militares, afirmava a carta, "não se teve misericórdia nem razões humanitárias para deixar com vida as vítimas, às quais nem foi permitido um processo justo. Além disso, seus corpos não foram devolvidos aos familiares, que continuam procurando-os há mais de 20 anos".
A carta também menciona o caso do deputado comunista Bernardo Araya, que tinha dupla imunidade por ser parlamentar e secretário geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT), e que tinha 75 anos quando foi detido com Olga Flores, sua esposa de 68 anos. Ambos continuam desaparecidos.
Enquanto o Grupo de Familiares entregava a carta em La Moneda, a seis quadras do palácio presidencial, mais de 2.000 oficiais e sub-oficias aposentados reuniram-se no teatro Monumental para formar um movimento que defenda "o tratamento que está sendo dado nos tribunais de justiça àqueles que participaram do governo militar".
"Durante este ano, disse o general de reserva Rafel Villaroel - estivemos recebendo ofensas gratuitas daqueles que em tempos passados violaram a convivência nacional e agora querem mudar a história". O general acrescentou que os chilenos devem agora passar a tomar atitudes e apoiar decididamente a reconciliação nacional.





