Brasília, 19 (AE) - O ex-presidente do Banco Central (BC) Francisco Lopes conseguiu hoje adiar o depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Sistema Financeiro, instalada pelo Senado. Alegando ser objeto de "uma série de violências", que teriam culminado na invasão da residência dele por agentes da Polícia Federal (PF) na última semana, Chico Lopes argumentou que precisa permanecer no Rio para tomar as "providências legais cabíveis". O economista pediu 20 dias aos senadores para esclarecer a venda de dólares abaixo dos preços de mercado ao Banco Marka, do empresário Salvatore Cacciola. No entanto, a CPI marcou para dia 26 o depoimento.
Marcado para hoje, o depoimento do economista, entretanto, poderá ser tomado na próxima semana. Em depoimento prestado à comissão de sindicância do BC, na sexta-feira (16), Chico Lopes afirmou que a operação de socorro financeiro aos Bancos Marka e FonteCindam durante a desvalorização do real foi "absolutamente legal" e decorreu de uma decisão colegiada, aprovada por toda a diretoria do BC. "Se não tivesse certeza absoluta da legalidade dessas operações, elas não seriam realizadas", afirmou o ex-presidente do BC à comissão de sindicância. O documento foi enviado à CPI hoje e divulgado pelos senadores.
Chico Lopes afirmou que, antes do fechamento das negociações com os Bancos Marka e FonteCindam, consultou o procurador Francisco Siqueira, do BC. O ex-presidente do BC informou também que conversou com outros dois procuradores, dos quais obteve aval para a operação de venda de dólares ao Marka e ao FonteCindam a preços inferiores aos do mercado.
Segundo o documento entregue aos senadores, Chico Lopes confirmou ter presidido a reunião da diretoria colegiada do BC que decidiu prestar socorro aos dois bancos, mas informou não ter atuado na mesa de operações da instituição. O economista comentou que a carta enviada pela Bolsa de Mercadorias & de Futuros (BM&F) ao BC - prevendo um "risco sistêmico" no sistema financeiro - foi "um elemento importante" na avaliação da diretoria do BC para autorizar a operação de socorro aos Bancos Marka e FonteCindam.
O economista disse que realizou operações de venda de dólares aos Bancos FonteCindam e Marka a preços mais baratos do que os do mercado.
Segundo o relatório sobre o depoimento, os dólares foram vendidos no dia 14 ao Banco Marka por 1,275 real e ao FonteCindam, no mesmo dia, a 1,32 real. Ainda de acordo com o relatório, Chico Lopes confirmou que, em 19 de janeiro, fez outra venda de dólares ao FonteCindam, desta vez, a 1,56 real.
A decisão teria sido registrada em ata da reunião realizada às 9h30 de 14 de janeiro, à qual estava presente, segundo o ex-presidente, toda a diretoria do BC, exceto Gustavo Franco, que havia deixado a presidência da instituição, e o então diretor de Normas, Sérgio Darcy, que estava de férias. Chico Lopes disse que o voto número 006, apresentado pelo então diretor de Assuntos Internacional, Demóstenes Madureira de Pinho Neto, e subscrito pelo então diretor de Fiscalização, Cláudio Mauch, foi aprovado pela diretoria.
Esse voto permitiu ao BC operar no mercado futuro de câmbio da BM&F. No depoimento, Chico Lopes considerou essa operação "perfeitamente legítima" porque teve o "objetivo de defender o real". O ex-presidente do BC disse ainda que existe um voto do Conselho Monetário Nacional (CMN) que permite ao BC operar na BM&F.
Na presença do procurador do BC, responsável pela sindicância interna, e de um agente da PF, o ex-presidente do BC confirmou que tinha conhecimento de que os Bancos Marka e FonteCindam estavam muito alavancados no mercado futuro e disse que, na opinião dele, essas operações não trouxeram prejuízo ao BC porque foram realizadas a preços superiores aos praticados pela bolsa de mercadorias.
No depoimento, Chico Lopes também esclareceu as relações com personagens que atuam em torno do caso Marka. O economista informou ter estado uma uma única vez na sede do BC no Rio, com Rubens Novaes, apontado pela revista "Veja" como intermediário do Banco Marka para o pagamento de propinas a funcionários do BC
em troca de informações privilegiadas. Chico Lopes disse ainda que teve contatos com Novaes na década de 70, na Fundação Getúlio Vargas (FGV).
O ex-presidente do BC informou que conhece o investidor Francisco de Assis Moura, ligado ao Fundo Nikko, que operava com o Banco Marka no mercado futuro, mas que não tem nenhum relacionamento de amizade com ele.
Ele disse que nunca recebeu, em casa, telefonema de banqueiros ou pessoas ligadas ao sistema financeiro para tratar de assuntos profissionais.
Chico Lopes confirmou ainda que conhece o ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Slcial (BNDES) Eduardo Modiano, que foi sócio dele na empresa de consultoria Macrométrica.
Segundo ele, Modiano deixou a sociedade em 1986 e, depois disso, não teve mais contato com ele. Chico Lopes contou ter havido um desentendimento entre os dois, quando Modiano deixou a sociedade, resultando no estremecimento das relações deles.
O economista também contou a própria versão sobre a saída de Mauch, em 14 de janeiro. Segundo Chico Lopes, Mauch teria informado-lhe que pretendia deixar o cargo, mas o faria após um período de transição e que ele o estava avisando previamente desta decisão.

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