Rio, 02 (AE) - A festa em homenagem à Mangueira, ontem (01) à noite, no Canecão, no Rio, que teve como destaque o cantor e compositor Chico Buarque, foi marcada pela polêmica em torno do cantor do grupo de pagode Só pra Contrariar, Alexandre Pires. Desde que ele apareceu cantando ao lado de Jamelão, no CD das escolas do grupo especial, os boatos em torno da sua participação no desfile estão causando confusão.
O presidente da Mangueira, Elmo José dos Santos, já garantiu, porém, que Pires será apenas mais um componente. "Essa hipótese de ele puxar o samba não existe; nosso cantores oficiais são o Jamelão e o Luizito, que fará a segunda voz", afirmava um irredutível Santos, durante o show em homenagem à verde-e-rosa que teve a participação do próprio Pires e de outros convidados, como os cantores Sílvio Cesár, Rosemary, Beth Carvalho, Alcione e o pianista Luís Carlos Vinhas. Amanhã e quinta-feira, o show estará em cartaz no Olympia, em São Paulo.
A preocupação do presidente da Mangueira está na possibilidade de a escola perder pontos no samba-enredo, já que Pires é inexperiente. "A gente não pode arriscar, estamos visados", justifica, lembrando que a escola foi campeã no ano passado. Prudente, Pires nega a participação. "Não vou cantar, a responsabilidade é grande". O próprio Jamelão não toca no assunto. "Quem fala muito, morde a língua", corta.
Pela primeira vez em 12 anos, a Mangueira vai desfilar sem o puxador Eraldo Caê, considerado o sucessor natural de Jamelão, de 86 anos. Uma briga entre Caê, que também é compositor, e a diretoria da escola, durante a disputa da escolha do samba-enredo, teria sido o motivo do seu afastamento. Defesa - A preocupação técnica de Santos, no entanto, não convence dona Neuma, da Velha Guarda da Mangueira e uma das figuras mais conhecidas da escola. "Ah, ele tem que cantar sim, até porque o Jamelão não aguenta mais o rojão", diz. "Se fosse eu, que já tenho a voz cansada, ainda vai lá, mas o Alexandre Pires canta muito bem e nunca faria feio na avenida". Segundo dona Neuma, a Velha Guarda tentará convencer Santos (que, afinal, é quem dá as cartas) a mudar de idéia, se preciso, até pouco antes do desfile - na concentração.
Segundo Santos, a idéia de chamar o cantor - que desde o ano passado vinha insistindo para sair na Mangueira - atendeu, principalmente, a mais a uma manobra de marketing da Liga das Escolas de Samba do Rio: a de aumentar a procura pelo CDs das escolas nas lojas de discos, já que o SPC é responsável por uma das maiores vendagens de discos do País. Show - No show do Canecão, Alexandre Pires, vestido com terno verde e gravata rosa, acabou agradando a maioria da platéia, que lotou a casa. "Eu gostei dele; não envergonha tê-lo ao lado da escola", aprovou o crítico Hermínio Bello de Carvalho, mangueirense histórico, autor do clássico "Sei lá, Mangueira", com Paulinho da Viola.
Mas o momento mais marcante da noite coube a Chico Buarque, tema do enredo campeão da verde-e-rosa do ano passado. Trajando camisa verde e calça branca de algodão, Chico esqueceu a gripe que o incomodava e cantou quatro músicas de sua autoria, encerrando com o samba "Vai Passar".
"Sempre fui Mangueira e não poderia deixar de estar aqui", agradeceu. Foi a última participação dele em um evento com a verde- e-rosa antes do carnaval. O compositor não poderá comparecer à avenida esse ano, apesar de ter sido convidado pela escola. No dia do desfile, ele estará participando do relançamento do seu livro "Benjamin", em Londres.

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