Chelotti cai e Calheiros indica delegado titular para diretor-geral da PF
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quarta-feira, 03 de março de 1999
Por Hugo Marques e Isabel Braga 
Brasília, 04 (AE) - O ministro da Justiça, Renan Calheiros, indicou hoje o delegado Wantuir Brasil Jacine, titular da Coordenação Central de Polícia da Polícia Federal (PF), para diretor-geral interino da corporação. O nome do diretor-geral definitivo será anunciado no máximo em 72 horas, segundo Calheiros. Há mais de quatro anos no cargo, Chelotti, pressionado até pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, entregou hoje a carta de demissão ao governo, na noite de hoje, alegando problemas pessoais. Calheiros pediu a Jacine levantamento detalhado dos inquéritos em andamento na PF e rastreamento dos telefones do governo na Esplanada dos Ministérios, para detectar possíveis grampos.
A demissão de Chelotti, que vinha sendo costurada no Palácio do Planalto e no Ministério da Justiça, deve-se principalmente às declarações do diretor-geral, que, em conversas telefônicas, disse ter cola superbonder na cadeira e ainda ter "nas mãos" o ex-ministro da Justiça Íris Resende. Chelotti também dizia sempre que tinha "o homem" nas mãos, sugerindo que detinha informações reservadas para se manter no cargo.
Calheiros disse que tem vários nomes em estudo para ocupar a direção-geral da PF, mas preferiu não criar expectativas antes de escolher um definitivo. O ministro afirmou que o perfil do novo diretor-geral da PF será de um técnico, sem qualquer comprometimento com partidos políticos. "Em nenhum momento, admitirei a politização do cargo", disse o ministro. Calheiros disse que irá priorizar um nome da própria PF, mas deixou claro que isto não está definido.
"Preferencialmente, vamos procurar uma solução interna", disse o ministro. O novo diretor-geral da corporação terá de administrar a PF com responsabilidade, harmonia e respeito à hierarquia, segundo o ministro.
Calheiros pediu a Jacine um levantamento pormenorizado de todos os inquéritos em andamento na PF, vários deles instaurados na gestão de Chelotti. O governo quer saber com detalhes como andam as investigações de grampos telefônicos que geraram grandes escândalos nacionais, exemplo das escutas telefônicas no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a que envolveu o próprio Chelotti, onde dizia ter autoridades nas mãos.
O ministro da Justiça incumbiu Jacine de realizar uma profunda varredura em todos os telefones do governo, concentrados na Esplanada dos Ministérios, onde se localizam ministérios e palácios de órgãos dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Calheiros disse que vai, posteriormente, determinar à PF que instale sistemas contra escutas telefônicas em todos os sistemas de telefonia do governo. Enquanto estes sistemas não estiverem instalados, disse Calheiros, serão realizadas investigações constantes. "Não podemos permitir que estes grampeadores criminosos invadam a privacidade das pessoas", disse o ministro.
A demissão de Chelotti foi tema hoje de duas conversas de Fernando Henrique com Calheiros. Ao chegar de Lima, pela manhã, Calheiros teve a primeira conversa com Fernando Henrique, que voltou a dizer que o ministro tinha carta branca para demitir Chelotti. Uma reunião de pouco mais de 30 minutos, à tarde, selou a demissão do diretor da PF. Fernando Henrique disse a Calheiros que o ministro estava autorizado a substituir o diretor-geral da PF por alguém com competência técnica. "Renan, resolva este problema lá no ministério; escolha um nome adequado", disse Fernando Henrique, segundo relatou o próprio ministro.
O governo, no entanto, encontrou uma fórmula para demitir Chelotti sem muito constrangimento para o diretor-geral da PF, que foi a apresentação do pedido de demissão. Com isso, o "Diário Oficial" da União (DOU) deve publicar a "exoneração, a pedido" de Chelotti. O ex-diretor-geral da PF passou o dia trancafiado no gabinete. Na noite de ontem (03), um dia antes de sair do governo, Chelotti fez várias ironias a jornalistas que o procuraram, pedindo informações sobre a suposta demissão. "Só estou sabendo da minha demissão pelos jornais", disse Chelotti a jornalistas.
Calheiros disse que vai tentar em sua gestão disponibilizar mais recursos para as ações da PF. Segundo o ministro, a PF incorpora a cada ano novos tipos ações contra o crime organizado e é necessário aumentar o orçamento. Calheiros disse que o governo vinha tentanto aumentar o orçamento. Em 1995
disse o ministro, o orçamento da PF foi de R$ 45 milhões. Em 1999, o valor subiu para R$ 104 milhões.
A saída de Chelotti fortalece dentro do governo o chefe da Casa Militar da Presidência da República, general Alberto Cardoso, e o subordinado dele, o secretário Nacional Antidrogas, Walter Maierovitch. Os dois vinham tentando impor um novo estilo no combate ao narcotráfico, por intermédio de ações de inteligência. Maierovitch costuma dizer que combater o narcotráfico não é somente arrancar pés de maconha, referência a uma das principais atividades da PF, mas também chegar aos grandes narcotraficantes e mafiosos, que lavam dinheiro arrecadado com a droga no sistema financeiro internacional.


