CHEIOS DE GRAÇA - Técnico em agropecuária semeia devoção
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domingo, 18 de abril de 2004
Rosângela Vale<Br>Reportagem Local 
Muitos religiosos comparam o ato de evangelizar ao de semear. O técnico em agropecuária Vilamir Colombetti, 52 anos, deu um sentido literal à metáfora. Ex-seminarista, católico fervoroso e apaixonado por plantas sua função, no Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) é melhorar a qualidade do solo e da água ele transforma sementes em terços e distribui aos que cruzam o seu caminho. ''Sempre acabo me envolvendo com pessoas boas, que têm uma função social bonita, voltada para a evangelização'', conta.
Ele garante que um dos modelos, feito com sementes de pau-brasil, chegou às mãos do Papa João Paulo II junto com o exemplar de um livro sobre Maria, escrito por uma paranaense. A habilidade também lhe valeu a amizade com vários padres e uma paz de espírito difícil de descrever. ''É na simplicidade que a gente encontra Deus'', ensina. Simples, entretanto, não é a melhor palavra para definir os terços criados por Vilamir.
Além dos modelos de tamanho convencional, com sementes de uricuri, olho de cabra, contas de lágrimas e pau-brasil, ele confecciona versões que chegam a três metros usando o cipó africano. O primeiro da série de terços gigantes teve um destino nobre para Vilamir: o altar da igreja de Barão de Cotegipe (RS), sua cidade natal, cuja paróquia se chama Nossa Senhora do Rosário. ''São coincidências que a gente não explica''.
Acreditando no poder protetor da oração, Vilamir reza o terço de quatro a cinco vezes por dia. A fé começou na infância, quando, todas as noites, ouvia o barulho das contas do rosário batendo na cabeceira da cama da mãe. ''Só depois entendi que, apesar de todas as coisas que passei na vida, só não caí por causa dos terços que ela rezava''. A devoção materna acabou levando o filho a entrar no Seminário de Passo Fundo (RS), onde ele ficou dos 13 aos 18 anos e aprendeu o ofício com os padres missionários.
Ao se mudar para Londrina e entrar no Iapar, em 1975, Vilamir começou a trabalhar com sementes diferentes e, então, resolveu dar a elas uma função extra nas horas de folga. Com alicate, arame e broca de dentista, ele produz, semanalmente, pelo menos dois terços. Cada um leva, em média, 45 minutos para ficar pronto. Apesar da insistência dos que se encantam com a originalidade de suas obras, ele nunca chegou a comercializá-las. ''Se eu os tivesse vendido, gastaria todo o dinheiro e não teria os amigos que tenho'', justifica.


