Chefes de Estado discutem nova arquitetura financeira mundial
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segunda-feira, 28 de junho de 1999
Por Isabel Braga (enviada especial) 
Rio, 29 (AE) - Durante mais de duas horas, 20 dos quase 50 chefes de Estado e de governo ou representantes de países desenvolvidos e pobres expuseram hoje, no Rio, preocupações sobre a nova arquitetura financeira mundial.
Primeiro a falar na sessão que discutiu temas econômicos na Cúpula dos Chefes de Estado e Governo da Europa, América Latina e Caribe, no Rio, o presidente da França, Jacques Chirac, manifestou hoje a preocupação com os paraísos fiscais e os fundos de hedge - fundos financeiros que operam no mercado futuro e têm grande peso nos movimentos especulativos.
Presidindo a sessão, o primeiro-ministro alemão, Gerhard Schreder, defendeu o aumento do controle político sobre as instituições financeiras internacionais. Mas partiu do presidente de Cuba, Fidel Castro, a proposta mais radical: demolir o atual sistema financeiro e construir um inteiramente novo.
O primeiro-ministro italiano, Massimo DAlema, defendeu a necessidade de os países latino-americanos em consolidar a credibilidade para os investimentos estrangeiros continuarem a fluir, no momento em que as privatizações começam a perder peso.
O presidente chileno, Eduardo Frei, que falou antes de Castro, criticou os que "demonizam" as instituições financeiras. Engrossando o coro da maioria dos presidentes, Frei afirmou que elas devem ser reforçadas e melhoradas e fez um pedido: que os países não se desmobilizem na busca de soluções para a volatilidade dos capitais financeiros, agora que foi possível superar a fase mais aguda da última delas, que atingiu o Brasil e provocou a desvalorização do real.
Enquanto os representantes dos países ricos retrataram a visão sobre os problemas macros da economia mundial, os representantes dos países mais pobres relataram as dificuldades financeiras. O presidente do Equador, Jamil Mahuad, fez um quadro abrangente das dificuldades econômica no país dele, provocadas pelo fenômeno El Niño, que afetou a agricultura. Ele disse que houve uma queda de 15% no Produto Interno Bruto (PIB) do país e pediu às nações européias que considerassem um perdão da dívida externa.
Países produtores de bananas manifestaram descontentamento com a decisão da Organização Mundial de Comércio (OMC) que fez restrições à importação da fruta. O presidente do Uruguai, Julio Maria Sanguinetti, criticou a política agrícola comum dos países europeus, argumentando que o aspecto do desabastecimento - que serviu de pretexto para sua criação, em 1957 - desapareceu. Sanguinetti destacou que, hoje, as mães européias estão preocupadas com problemas relacionados com o uso excessivo de tecnologia. O presidente Uruguaio ofereceu a capital do país, Montevidéo, como local para a terceira Cimeira, após o encontro de 2002, que será realizado na Espanha. Na terceira e última sessão do encontro, foram discutidos temas sociais e a maior parte dos presidentes que falaram destacaram a importância da educação e do combate ao analfabetismo. O presidente do Peru, Alberto Fujimori, disse que
ao contrário do discurso populista, não são as lideranças que libertam o povo e sim a educação.
O presidente Fernando Henrique Cardoso fez duas intervenções na reunião sobre temas econômicos. Falando de improviso, o presidente fez referência à Tobin Tax - imposto a ser aplicado sobre o movimento internacional de capital defendido pelo economista norte-americano James Tobin - como um dos mecanismos viáveis de controle para a volatilidade de capitais. O presidente também agradeceu o apoio financeiro dos países da Europa na fase mais crítica da crise econômica brasileira, defendendo uma liberação mais rápida dos recursos.
No encerramento dos trabalhos, o presidente optou por um discurso mais leve, no qual voltou a afirmar que possui formação cartesiana, com um pitada de candomblé e vodu. "Sem estes elementos, eu não seria brasileiro e latino-americano." O presidente pregou a necessidade de solidariedade aos países pobres e endividados vítimas de furacões e lembrou que mesmo o Brasil não se furtou em anular as dívidas com eles. Durante o almoço, o presidente fez um brinde em cinco idiomas diferentes.


