Chefes de Estado destacam avanços da Cimeira e alfinetam França
Rio, 29 (AE) - Apesar do tímido avanço nas negociações para a aproximação comercial entre os blocos do Mercosul e União Européia, a maioria dos líderes participantes do encontro aprovou os resultados da Cimeira. "Não conseguimos convencer nossos parceiros a começar mais cedo as negociações formais, mas o acordo que conseguimos é satisfatório, e agora queremos assegurar que seja integralmente respeitado", afirmou o ministro das Relações Exteriores da Inglaterra, Robin Cook, referindo-se à criação da área de livre comércio.
Os negociadores preferiram ressaltar as conquistas a criticar as divergências para o fechamento de um acordo. "Conseguiu-se um entendimento para além do que todos pensávamos", disse o primeiro-ministro português, Antonio Guterrez. Portugal teve um papel importante para que a Comissão Européia chegasse ao Brasil com um mandato negociador. "Foi o compromisso mais avançado que se conseguiu alcançar, que se refletirá na Rodada do Milênio."
A despeito das declarações do presidente da França, Jacques Chirac, de que o protecionismo em seu país, especialmente no setor agrícola, seria "uma lenda", a resistência francesa parece ter sido o principal obstáculo à antecipação do acordo. "Se é lenda ou não, o importante é trabalharmos para que se desmonte o protecionismo nos mercados", declarou o primeiro-ministro da Espanha, Jose María Aznar. O Reino Unido, segundo declarou Cook, também é favorável à abertura do mercado europeu aos produtos latino-americanos. "Continuaremos (Reino Unido) a ser a principal voz a pedir a reforma da política agrícola da Europa", afirmou Cook. "Mas sabemos que nem todos os países europeus são tão entusiastas quanto à abertura de um mercado livre e que existe uma ansiedade especial naqueles que têm um vasto setor agrícola", disse, numa referência velada à França.
O primeiro-ministro italiano, Massimo DAlema, mostrou-se otimista quanto às consequências da Cimeira para o comércio internacional, mas também criticou veladamente a França, embora não se referisse explicitamente ao vizinho. "Não quero comentar a posição de ninguém", afirmou. "O que digo é que a Itália é favorável a uma área de livre comércio, é contra a elevação de taxas de importação de produtos agrícolas, e nisso todos ganham."
Para DAlema, é até possível que, numa abertura do mercado italiano a produtos agrícolas, os latino-americanos consigam ser mais competitivos em alguns itens, mas isso seria compensado pelo aumento nas exportações de produtos industrializados da Itália para a América Latina. O primeiro-ministro destacou que, do ponto de vista prático, a decisão importante foi o mandato negociado entre a União Européia e o Mercosul.
Segundo ele, a Cimeira foi uma parte importante da nova arquitetura econômica, fundada na cooperação. A disputa entre os Estados Unidos e a Europa pelo mercado latino-americano foi abordada nas discussões, mas amenizada nas declarações oficiais. "A concorrência entre a Alca (área de Livre Comércio das Américas) e a União Européia é boa para evitar a formação de um monopólio comercial", disse Aznar. Ele citou o México, que participa da Alca e deverá fechar acordo este ano com a UE, como um exemplo positivo para as relações comerciais entre os blocos. DAlema disse que a Alca não é concorrência, mas convergência.
Carta do Rio - Guterrez considerou a Cimeira "um marco histórico nas relações entre a Europa e a América Latina" por ter definido uma política pluralista de direitos humanos, uma relação econômica mais justa entre os países e uma linha de ação comum para os crimes transnacionais. Na avaliação de Aznar, o encontro reafirmou o valor da democracia e dos direitos humanos. Ele destacou a aprovação de pontos que indicam o interesse dos países signatários da Carta do Rio em combater a pobreza, o narcotráfico e o terrorismo, além da cooperação no setor audiovisual e de telecomunicações.
Já o chanceler da Guatemala, Eduardo Stein, afirmou que faltou uma discussão mais ampla sobre a população indígena. Ele lembrou que existem aproximadamente 7,5 milhões de descendente indígenas na América Central, sendo que 6 milhões vivem na Guatemala.





