Chefes da Otan recebidos por manifestantes em 1ª visita a Kosovo
Pristina, 24 (AE-AP) - Líderes civis e militares da Otan caminharam orgulhosamente nesta quinta-feira (24) pelas ruas da capital de Kosovo, em meio a aplausos, lágrimas e abraços de albaneses étnicos agradecidos pela campanha de bombardeio da aliança que forçou a retirada das tropas iugoslavas.
Os líderes se mostraram enaltecidos com a recepção, mas sobriamente notaram que o povo de Kosovo enfrenta uma longa e difícil luta para se libertarem dos ódios que ainda tomam a província.
Enquanto o secretário-geral da Otan, Javier Solona, e o comandante general Wesley Clark andavam pela cidade, onde muitos prédios foram destroçados pela guerra e por saqueadores, tropas de paz investigavam o cruel assassinato de três pessoas na Universidade de Pristina e um tiroteio entre sérvios e albaneses explodia nos corredores do principal hospital.
Em Pec, uma das mais importantes cidades de Kosovo, incêndios arrasaram casas sérvias e muitas das residências da parte cigana da localidade. Sérvios locais disseram que os incêndios eram parte da intensificação de uma campanha revanchista de albaneses.
"Gostaria de pedir a todos os albaneses de Kosovo, na verdade a todos os povos de Kosovo, para não deixarem que o ódio étnico e o desejo de vingança cortem seus corações", disse Solana num entrevista coletiva à tarde, depois de encontrar-se com representantes sérvios e albaneses, incluindo Hashim Thaci, líder político do rebelde Exército de Libertação de Kosovo (ELK).
Esse encontro durou mais de 90 minutos e "depois deste diálogo, eu realmente acredito que existe esperança", afirmou Solana. Ele elogiou Thaci por ter assinado um acordo com a Otan para a desmilitarização do ELK.
Clark disse que crescentes evidências de valas comuns e atrocidades sendo descobertas desde que os soldados de paz entraram na província em 12 de junho abonavam a controvertida decisão da Otan de bombardear a Iugoslávia. "Acho que as ações da Otan foram plenamente justificadas. O que vemos aqui é a magnitude do horror que exigiu a ação da Otan", afirmou Clark.
Entre as noticiadas atrocidades está um massacre na vila de Slovinije, onde testemunhas disseram que 43 homens foram executados por sérvios e duas mulheres foram estupradas antes de serem mortas. Tropas da Otan detiveram hoje um homem identificado por moradores como um dos criminosos.
Também hoje, o parlamento iugoslavo aboliu o estado de guerra declarado após o início dos bombardeios da Otan em 24 de março. A decisão, que entra em vigor sábado, irá suspender restrições à mídia, uma proibição de homens em idade militar deixarem o país e um banimento de reuniões públicas. Mas o parlamento também aprovou novas medidas que poderia preservar o poder do governo de controlar a dissidência.
O regime autocrático do presidente Slobodan Milosevic tem sido balançado pelo conflito de Kosovo, no qual a Iugoslávia foi duramente danificada por bombardeios e foi forçada a concordar com a retirada de suas tropas de Kosovo e permitir a entrada de forças lideradas pela Otan.
Aumentando a pressão, descontentes reservistas do exército iugoslavo bloquearam hoje pelo segundo dia seguido estradas no centro da Sérvia exigindo pagamentos atrasados pelos serviços prestados durante a campanha de bombardeio.
Também hoje, o Departamento de Estado dos Estados Unidos ofereceu recompensas de até US$ 5 milhões por informações que levem à prisão de suspeitos procurados pelo tribunal de crimes de guerra para a ex-Iugoslávia, incluindo Milosevic.
Estimados 50.000 sérvios já fugiram de Kosovo desde o fim da guerra, temendo revanches albanesas contra eles por atrocidades sérvias e por anos de opressão. Apesar de soldados de paz terem prometido tornar Kosovo seguro e o ELK ter prometido se desmilitarizar, ódios e espírito de vingança continuavam fortes hoje.
Um sérvio foi morto e um albanês étnico ferido num tiroteio quando um família de refugiados albaneses retornou a seu apartamento em Pristina e descobriu que ele estava ocupado por sérvios. As vítimas foram levadas para o principal hospital da capital, onde seus parentes abriram fogo uns contra os outros nos corredores, ferindo um guarda e uma enfermeira.
Os corpos de três homens, entre eles um professor sérvio, foram encontrados no departamento de economia, dirigido por sérvios, da Universidade de Pristina. Aparentemente eles foram espancados e depois baleados, afirmou o diretor do departamento, Milos Simovic. Tropas da Otan isolaram a área e estavam promovendo investigações.
Os incêndios em Pec, uma cidade que já teve uma população de 100.000 pessoas mas agora está quase deserta, começaram antes do amanhecer, e colunas de fumaça subiam aos céus da cidade por todo o dia. Pelo menos 10 casas foram queimadas até o início da noite, uma nas proximidades de um monastério sérvio ortodoxo onde um número cada vez maior de sérvios da cidade tem se refugiado.





