Chefe da Polícia Civil diz que não põe cargo à disposição
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segunda-feira, 20 de março de 2000
Por Murilo Fiuza de Melo 
Rio, 21 (AE) - O chefe de Polícia Civil do Rio de Janeiro, Rafik Louzada, disse hoje que não é "covarde" nem "leviano" para colocar o seu cargo à disposição do governador Anthony Garotinho. Pivô da crise que culminou com a demissão do coordenador de Segurança e Cidadania, Luiz Eduardo Soares, Louzada teve todos seus principais assessores afastados por Garotinho na última segunda-feira, a pedido da comissão especial que apura corrupção na polícia fluminense.
Amanhã (22) a comissão deverá ouvir a ex-ouvidora de Polícia Julita Lemgruber, que apresentou dossiê contendo 101 denúncias de irregularidades contra policiais não apuradas pelas corregedorias da Civil e da PM.
"Colocar o cargo à disposição é uma leviandade, um ato de covardia, e eu não sou covarde", afirmou Louzada, após reunião pela manhã com o secretário de Segurança, coronel Josias Quintal. "O cargo pertence ao governador e, na hora que ele quiser, pode me tirar, mas enquanto confiar em mim, não me demitir, continuaremos nosso trabalho à frente da polícia com tranquilidade."
O chefe de Polícia é citado em duas das 19 denúncias levadas por Soares ao Ministério Público, que participa da comissão especial de investigação. Em uma delas, ele aparece como dono de uma franquia de uma rede de lanchonete no valor de R$ 500 mil. Na outra Louzada seria um dos responsáveis pela extorsão de R$ 210 mil do traficante Lobão, da Favela da Rocinha (zona sul), em janeiro passado. "Essas denúncias são mentirosas e fáceis de serem derrubadas, porque necessitam de documentos, mas respeito muito o trabalho da comissão e me reservo o direito de dizer o que sei diante dela, para que o trabalho de investigação não seja prejudicado", afirmou o delegado.
Louzada chegou à sede da Secretaria de Segurança Pública acompanhado da delegada Márcia Julião, titular da Delegacia de Proteção à Criança e Adolescente, transferida na segunda-feira para o Setor Administrativo da Polícia Civil - uma espécie de "geladeira" da corporação para onde vão todos os policiais envolvidos em possíveis irregularidades. Márcia é apontada como suposta beneficiada de uma rede de propina que tomava dinheiro de pequenos hotéis, motéis e casas de massagens do centro do Rio
para liberar a frequência de prostitutas menores de idade.
Além da titular da DPCA, foram atingidos pela faxina do governador os delegados Mário Azevedo, coordenador das delegacias da capital, e Marcos Reimão, superintendente das Especializadas, que foram exonerados. O delegado Walter Barros, coordenador do projeto Delegacia Legal, acusado de prática de tortura, e o detetive José Luiz Magalhães, que responde à corregedoria da Polícia Civil por extorsão, foram afastados.
Ainda a pedido da comissão especial de investigação, Garotinho determinou a transferência do detetive José Carlos Guimarães, que estava lotado na Delegacia de Roubos e Furtos de Veículos (DRFVAT) e deverá ir para o Setor Administrativo.
Azevedo, Reimão e Guimarães, além do detetive Fernando César Barbosa, também afastado, eram considerados homens de confiança de Louzada. Mesmo assim, o chefe de Polícia continua no cargo, porque segundo o coronel Quintal as denúncias contra ele ainda são "superficiais". "Eu não me sinto desestabilizado por causa da demissão dos meus colaboradores, até porque a Polícia Civil é uma instituição milenar (sic) e permanente, e nós somos passageiros", disse.
Defesa - O delegado disse, no entanto, confiar em seus assessores afastados. "Os substitutos serão tão dignos quanto os que saíram, porque eu confio na dignidade de meus policiais"
afirmou. "Eles estão saindo para serem preservados e para facilitar o trabalho da comissão de investigação."
Pela manhã, em entrevista à rádio CBN, Garotinho reafirmou que ninguém em sua equipe é insubstituível, mas ressaltou que não tem provas contra Louzada. "Se as investigações chegarem à conclusão de que o chefe de Polícia tem qualquer envolvimento, ele estará fora, porque o meu governo não tem compromisso com a banda podre da polícia", garantiu o governador.
À tarde, o detetive José Luiz Magalhães, afastado por suspeita de tentativa de extorsão ao traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, se apresentou espontaneamente ao Ministério Público, onde depôs durante cinco horas. Segundo seu advogado, José Carlos Tortima, o detetive negou tudo e disse que não é o Magalhães que aparece na fita gravada pela Polícia Federal do Mato Grosso do Sul. Na conversa, Beira-Mar acusa o policial de extorquir R$ 300 mil e de lhe tomar um apartamento e carros.


