Chefe da Abin no Rio desmentiu depoimento de Alberto Cardoso
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terça-feira, 25 de maio de 1999
Por Eliane Azevedo 
Rio, 26 (AE) - O depoimento do chefe do Gabinete Militar da Presidência da República, general Alberto Cardoso, no inquérito que apura o grampo no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), foi desmentido pelo chefe do escritório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) no Rio, João Guilherme dos Santos Almeida, ouvido duas vezes pela Polícia Federal (PF) para esclarecer um ponto: como a Abin soube da existência de fitas com gravações clandestinas sobre o leilão da Telebrás.
As declarações de ambos constam dos autos, liberados hoje pelo Ministério Público Federal - o segredo de Justiça foi quebrado ontem (25). O general prestou depoimento em 15 de abril e contou que, em meados de agosto do ano passado, numa viagem ao Rio, soube por intermédio de Almeida da existência de boatos sobre gravações feitas por grampo, a respeito da privatização da Telebrás, que envolveriam o presidente da República. A partir daí, teria mandado a agência investigar o assunto.
Almeida, porém, ouvido em 26 de abril, disse ter transmitido a Cardoso uma informação recebida verbalmente de um subordinado. Esse informe dava conta da existência de um "material comprometedor" sobre o presidente - mas não detalhava se eram fitas, vídeos ou papéis, nem o assunto ou área a que se referiam. Reinquirido em 6 de maio, ele repetiu essa versão, garantindo não saber, naquela época, que se tratavam de fitas gravadas num grampo no BNDES.
O general não repetiu à polícia a história das fitas encontradas embaixo de um viaduto. Limitou-se a dizer que recebeu as gravações do subsecretário de Inteligência do gabinete militar, Ariel Rocha de Cunto - que, em seu depoimento, contou que as fitas foram levadas a ele pelo coordenador-geral de operação, Gerci Firmino da Silva.
Apesar de Cardoso ter mandado a Abin investigar a história, os depoimentos de todos os funcionários da agência ouvidos aponta que ninguém descobriu nada, até o coordenador, em 30 de setembro do ano passado, ter recebido o telefonema anônimo que o levou às duas fitas, encontradas numa caixa ao lado da primeira pilastra do viaduto sobre a Estrada Parque Indústria e Abastecimento, em Brasília.
Considerado pela Polícia Federal um dos suspeitos do grampo, o agente Temílson Antonio Barreto de Resende, o Telmo, lotado na agência regional do Rio, negou ter qualquer envolvimento no assunto.
Curiosamente, foi o setor no qual trabalha que ficou encarregado, sem sucesso, de investigar o boato, segundo a ordem do general. Outro suspeito, Adilson Alcântara de Matos, sócio de uma empresa de investigação e amigo de Telmo, também negou estar envolvido no grampo.
A procuradora da República Silvana Batini, que acompanha o inquérito, disse que, com a liberação dos autos, ficará pública a dificuldade de apuração da autoria do grampo. "Percebemos uma indisposição de pessoas que poderiam falar mais", lamentou. "Está faltando um genro, uma secretária, um motorista nesse inquérito."
O laudo do Instituto Nacional de Criminalística (INC) sobre a perícia feita nas duas fitas, anexado ao inquérito, apontou que as gravações foram feitas em 27 e 28 de julho de 1998 e o grampo foi colocado nas quatro linhas diretas do gabinete da presidência do BNDES. Os peritos, porém, não conseguiram descobrir se a escuta foi feita na central telefônica do banco ou na Telerj.
O fato de cada lado das fitas apresentar a gravação de uma das linhas grampeadas e as interrupções e repetições nas conversas levaram os peritos a concluir que as gravações foram editadas.


