Chechenos fogem aos milhares de bombardeios russos
Grozny, 27 (AE-AP) - Aterrorizados civis tentaram fugir aos milhares hoje (27) da Chechênia, afugentados por intensos bombardeios russos visando esmagar militantes islâmicos na república separatista.
"Queria estar morta", lamentava Tamara Aliyeva, 70 anos, cuja casa na capital Grozny foi destruída por bombas russas. "Não sei o que fazer ou para onde ir".
Aliyeva uniu-se a dezenas de milhares de chechenos que rumavam para a vizinha república russa de Ingushetia na esperança de encontrar abrigo - apenas para descobrir que a fronteira estava fechada.
Em Grozny, aviões de combate russos despejavam pelo quinto dia seguido bombas e mísseis. Segundo testemunhas, refinarias de petróleo em Grozny estavam em chamas, cobrindo a capital com uma nuvem negra.
Jatos russos também atacaram outras cidades e vilas em toda a Chechênia, alvejando supostas bases militantes junto com torres de perfuração e outras instalações industriais.
O presidente checheno, Aslan Maskhadov, afirmou hoje que 300 pessoas foram mortas apenas na capital. O número não pôde ser confirmado por fontes independentes.
Muitos refugiados chechenos imprensados na fronteira russa estavam em estado de choque. "Onde está minha mãe", perguntava entre soluços Liza Temirsultanova, de 8 anos.
Seu avô, Ayup Temirsultanov, disse que a mãe de Liza, a babá e dois irmãos foram mortos por bombas russas em Grozny nesta segunda-feira.
Os bombardeios visam enfraquecer militantes islâmicos, que invadiram por duas vezes nas últimas semanas a república vizinha russa do Daguestão a partir de bases na Chechênia. Eles também são responsabilizados por uma série de atentados terroristas a bomba em Moscou e outras cidades russas que matou cerca de 300 pessoas.
O ministro da Defesa russo, Igor Sergeyev, disse hoje que os bombardeios contra a Chechênia irão continuar "até que o último bandido seja destruído", segundo a agência de notícias Interfax.
Os ataques têm alimentado temores de uma possível entrada de tropas terrestres na Chechênia, apesar da desastrosa guerra de 1994 a 1996, na qual tropas russas foram derrotadas por uma força guerrilheira bem menor. A Chechênia tem administrado seus negócios de Estado desde que conquistou de fato sua independência, apesar de Moscou ainda garantir que ela faz parte da Rússia.
O primeiro-ministro Vladimir Putin tentou hoje acalmar o nervosismo sobre uma possível repetição da guerra, na qual a Rússia muitas vezes enviou tropas pobremente treinadas para a batalha.
A Rússia irá recorrer a ataques aéreos para destruir infra-estrutura e "pacientemente, metodicamente destruir (os militantes) desde o ar", disse Putin. Se qualquer tropa russa for enviada, ela será altamente treinada e usada apenas para "operações de limpeza".
Putin afirmou que o Kremlin ainda planeja promover um encontro entre o presidente Boris Yeltsin e Maskhadov, mas que a reunião não será realizada até que o líder checheno denuncie o terrorismo em sua república e até que Moscou esteja certo de que os militantes não poderão usar o encontro em proveito próprio.
"Não vamos nos reunir apenas por reunir, para dar tempo para os militantes lamberem suas feridas e nos atacarem por outro lado", disse Putin a repórteres depois de encontrar-se com Yeltsin no Kremlin.
Maskhadov, que afirma que seu governo não tem ligações com os militantes, disse num pronunciamento televisionado no domingo que fará todo o possível para evitar uma guerra total e pediu por um diálogo político com Moscou.
Num encontro hoje com o coronel-general Konstantin Totsky, chefe do serviço fronteiriço russo, Yeltsin afirmou que as fronteiras da Rússia têm de ser fortalecidas para que armas e militantes não possam entrar no norte caucasiano. Os Guardas de Fronteira patrulham tanto as fronteiras externas da Rússia quanto divisas internas separando a Chechênia de outras regiões russas.
Enquanto isto, chechenos continuavam a fugir dos bombardeios, rumando a maioria deles para Ingushetia. Depois que cerca de 50.000 já haviam chegado, autoridades da Ingushetia fecharam a fronteira no domingo. Hoje, elas permitira a entrada de alguns refugiados, depois de checarem exaustivamente seus documentos, divulgou a tevê russa NTV.
Apesar disto, refugiados continuavam sair em grande número de Grozny e outras cidades chechenas, acampando em campo aberto nas proximidades da vila fronteiriça de Sleptsovskaya, cerca de 50 km a oeste de Grozny. Alguns foram abrigados por moradores locais, mas a maioria teve de armar barracas.
Autoridades locais estavam distribuindo alimentos, remédios, lenha e outros suprimentos de emergência. O ministro para Situações de Emergência da Rússia, Sergei Shoigu, afirmou que iria amanhã para a região.





