Chechênia nomeia inimigo nº 1 de Moscou para preparar defesa
GROZNY, Rússia, 29 (AE-ANSA) - Diante da ameaça de uma invasão iminente das tropas federais ao território checheno, o presidente dessa república russa separatista, Aslan Maskhadov, convocou hoje (29) os ex-comandantes da Guerra da Chechênia (1994-1996) para preparar a defesa. Na reunião, nomeou o "inimigo número 1 da Rússia", Shamil Bassayev, para o comando da Frente Leste do Exército.
Bassayev liderou cerca de 3 mil rebeldes islâmicos na invasão da vizinha república russa do Daguestão, no início de agosto e este mês, e é acusado pelo Kremlin de ser o cérebro por trás da onda de atentados que matou 293 pessoas desde o dia 31 na Rússia. Os rebeldes pretendem criar um Estado islâmico no Daguestão, mas foram expulsos pelos russos e estão concentrados no território checheno - de onde haviam partido.
A nomeação, um claro desafio ao Kremlin, foi anunciada pela assessoria de imprensa de Bassayev no mesmo dia em que Maskhadov tentava buscar uma solução política para o conflito. Ele iria manter conversações com o presidente do Daguestão, Magomed Ali Magomedov, na cidade daguestanesa de Jasaviurt - encontro planejado com o aval do Kremlin. No entanto, a população local bloqueou a passagem de Maskhadov, a quem acusa de apoiar os rebeldes, e impediu a reunião.
Já em Moscou, os preparativos para a ofensiva terreste entraram na fase final, segundo a agência russa Interfax, que chegou a anunciar durante o dia que as tropas haviam ocupado algumas montanhas chechenas. Porém, altos oficiais russos na região disseram não ter informações sobre movimento de tropas.
Citando fontes militares, a Interfax assinalou ainda que a invasão será limitada às áreas do território checheno sob poder dos rebeldes islâmicos. Com receio de repetir o fiasco da tomada de Grozny, na Guerra da Chechênia, as Forças Armadas não pretendem invadir a cidade.
O diário Sevodnya informou que o presidente Boris Yeltsin já recebeu do alto comando militar o plano de intervenção, cujo objetivo seria ocupar até o fim de novembro três quartos da república e pôr no poder um governo pró-Moscou.
Mesmo com tudo aparentemente pronto para a ofensiva, o primeiro- ministro Vladimir Putin disse hoje que o Kremlin não descarta a possibilidade de negociações com as autoridades da Chechênia. Ele ressaltou que para isso o governo checheno deve mostrar-se disposto a libertar o território de terroristas. A declaração foi feita horas depois do cancelamento do encontro de Maskhadov e Magomedov.
Dez pessoas morreram e dezenas ficaram feridas hoje nos ataques da aviação russa em Grozny, anunciaram autoridades locais. O fluxo de refugiados em direção à vizinha república russa da Ingushétia continua aumentando. O presidente ingushétio, Ruslan Aushev, disse que 60 mil pessoas entraram no território, que tem 300 mil habitantes. "É impossível acolher tal número de refugiados", afirmou. Parte dos recém-chegados está vivendo com parentes ou conhecidos.
As reservas de comida começam a esgotar-se e as panificadoras trabalham em sua capacidade máxima para suprir a demanda. Imagens da televisão russa mostram filas de carros particulares de até 20 quilômetros nos postos de controle policial entre as duas repúblicas.
Apesar de os jornais russos vislumbrarem uma "catástrofe humana", o ministro para Situações de Emergência, Serguei Shoigu, visitou a Ingushétia e declarou que o governo federal tem recursos para atender os refugiados. Ele minimizou o êxodo, dizendo que 20 mil chechenos se trasladaram para a Ingushétia. O Alto Comissariado da ONU para Refugiados informou que lançará uma operação de ajuda à república.
O Kremlin acusa a Chechênia de dar apoio aos grupos armados que invadiram o Daguestão - o que Maskhadov nega. Com a finalidade de destruir as bases rebeldes, as forças russas começaram a bombardear a república no dia 5 e a capital, há uma semana. Segundo o governo checheno, já morreram 400 pessoas nesses ataques, a maioria civis.
O Departamento de Estado dos EUA recomendou hoje à Rússia que evite invadir o território checheno porque essa ação dificultaria o diálogo com os líderes da república.





