Caracas, 13 (AE-AP) - Os venezuelanos participarão esta semana de um referendo sobre um projeto de nova constituição que, se for aprovado, ampliará os poderes do presidente Hugo Chávez e transformaria radicalmente a estrutura política do país.
De acordo com as pesquisas, a nova constituição será aprovada no referendo de quarta-feira, conferindo a Chávez, líder de uma fracassada tentativa de golpe de Estado em 1992, um respaldo legal para reformar ainda mais a democracia venezuelana, uma das mais antigas da América Latina.
Uma vitória do "sim" no referendo provocaria, além do mais, eleições antecipadas no ano que vem, pelas quais partidários de Chávez provavelmente conquistarão a maioria no poder legislativo e controlarão a maioria dos governos estaduais.
Devido ao que está em jogo, Chávez deu início a uma enérgica campanha pelo "sim" com uma inflamada retórica que segundo seus críticos está polarizando o país.
Chávez, um ex-pára-quedista do exército, também começou a comparecer em uniforme militar a concentrações nas quais exorta os venezuelanos a votar pelo "sim" em 15 de dezembro.
Rotulando seus opositores de "caminhão de avarentos reclamando" em um de seus comícios na semana passada, Chávez declarou: "Não há descanso. Não há trégua. À batalha!"
Em outras oportunidades, ele tem classificado líderes eclesiásticos de "curas degenerados" e a empresários de "oligarquia rançosa". A controvertida estratégia, entretanto, parece estar dando resultados.
O apoio à proposta de nova constituição aumentou 11 pontos percentuais, para 67%, em apenas uma semana desde que Chávez empreendeu a campanha pelo "sim", afirmou Luis Vicente Léon, diretor do instituto de pesquisa Datanálisis.
Diante de entusiasmadas multidões, Chávez garante que a nova constituição, redigida por uma Assembléia Constituinte integrada majoritariamente por partidos que o apoiam, trará justiça social à Venezuela.
Ele rechaça denúncias de que esteja incitando uma guerra de classes, argumentando que elas não passam de retórica de uma elite econômica que teme perder privilégios.
"A Venezuela está partida em pedaços, socialmente... O que temos feito é levantar as cortinas e mostrar a realidade", disse Chávez em uma recente entrevista ao diário El Nacional.
A nova constituição fortalece muitos direitos civis e estabelece normas para reduzir a corrupção no sistema judicial e nos partidos políticos. Além disso, confere ao Estado um papel mais ativo na economia, reduz a tutela civil sobre as forças armadas, elimina o Senado e confere ao presidente a faculdade de dissolver o congresso unicameral em determinadas circunstâncias.
Ela também permitiria Chávez permanecer no poder por 13 anos, pois amplia o período presidencial e elimina a proibição de reeleição imediata.
Os partidário de Chávez afirmam que a nova carta magna trará prosperidade e democracia. Seus adversários a denunciam como um plano estadista e militarista para estabelecer uma ditadura do tipo cubana.
O debate tem inflamado os ânimos de ambos os lados. Na semana passada, partidários e opositores de Chávez se enfrentaram fisicamente na frente da sede do Conselho Eleitoral em Caracas.
Nas últimas noites, venezuelanos de classe média e alta têm realizado "panelaços", batendo panelas em janelas e varandas em protesto contra a nova constituição.
Os moradores de bairros pobres respondem lançando fogos de artifício.
Chávez "recebeu um mandato eleitoral muito concreto do povo: castigar alguns", disse Leon. "A população se sente excitada com esse processo de castigo dos que ela considera culpados por seus males".
Chávez sustenta que quer melhorar a condição de vida dos pobres, mas seus críticos argumentam que incitar o ódio de classes é anacrônico em um país que quer modernizar-se e que o estilo paternalista de governo é precisamente uma das causas da deterioração do país".
"Esta constituição vai existir enquanto durar a liderança messiânica de Chávez", disse Alberto Franceschi, um dos seis opositores elegidos para a Assembléia Constituinte. "Trata-se de uma constituição dele para ele... e é uma constituição das ilusões nele", acrescentou.

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