Rio, 17 (AE) - O ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, e seu colega argentino, Adalberto Rodríguez Giavarini, reuniram-se hoje no Palácio do Itamaraty, no Rio, por duas horas e meia, mas frustaram as expectativas de que o encontro representasse o início do prometido relançamento do Mercosul. Os chanceleres abordaram "aspectos mais gerais", segundo Lampreia, e apenas fizeram referências às questões comerciais pendentes, como o acordo automotivo e os conflitos nos setores de frango e têxteis. As discussões "pontuais" ficarão para os próximos três meses e para uma reunião marcada para abril, provavelmente em Buenos Aires, com a presença de outros ministros.
Rodríguez esquivou-se de comentar diretamente as declarações da secretária de Indústria e Comércio da Argentina, Débora Giorgi, que defendeu uma posição mais severa da Argentina nas negociações com o Brasil. Mas o chanceler praticamente desautorizou a secretária ao dizer que o chefe dela, o ministro da Economia, José Luis Machinea, já se entendeu com o ministro da Fazenda brasileiro, Pedro Malan. Em entrevista publicada hoje pelo jornal "Clarín", a secretária afirmou ainda que o relançamento do Mercosul passaria pela criação de mecanismos de compensação, aplicados no caso de mudanças macroeconômicas em algum país-membro.
"O ministro ao qual a senhora Giorgi está subordinada e o ministro Malan acabaram de chegar a um acordo importante sobre a coordenação de políticas macroeconômicas, o que tem de estar terminado em junho", afirmou Rodríguez, em entrevista após o encontro. "Outro comentário que posso fazer é que na quarta-feira estarão sentados o vice-chanceler argentino, que também é secretário de comércio e relações internacionais da chancelaria, e a senhora Giorgi para negociar aspectos pontuais". Na quarta-feira será retomada no Brasil a negociação para o regime automotivo entre o País e a Argentina.
Mais adiante, Rodríguez declarou que "a chancelaria não se dedica a interpretar funcionários do governo, e eles falam por si mesmos". Segundo ele, no entanto, "de um lado e de outro os responsáveis pelas negociações vão tomando posições". Para o chanceler, "as relações com os países irmãos têm de ser francas, amplas e previsíveis, sem surpresas, como manifestou Lampreia".
O chanceler brasileiro não quis falar sobre as "surpresas" do passado, mas disse que tem segurança de que "não surgirão fatos novos como os que apareceram no passado recente, significativos na área comercial, política e militar". Os temas discutidos no encontro de hoje incluíram cooperação no combate ao crime organizado em zonas de fronteira, uma política de segurança rodoviária para evitar acidentes como os da semana passada - em que argentinos morreram em desastres de ônibus no Sul -, política e direitos humanos.
Segundo Lampreia, os chanceleres combinaram também tentar harmonizar posições, "o que não quer dizer que os dois países terão exatamente as mesmas posições o tempo todo", e conversaram sobre posturas do bloco frente a questões internacionais. De agora até abril, os países estarão em um processo preparatório para as discussões sobre as pendências comerciais. A reunião de abril foi chamada por Lampreia de "espécie de grande comissão bilateral, com um componente político-militar".
Equador - Rodríguez afirmou que apóia o Equador, país que acaba de anunciar a dolarização da economia, no esforço de consolidação do sistema de governo e das instituições democráticas. "Se eles consideram a dolarização positiva, nós apoiamos", disse. O chanceler garantiu que a Argentina não pensa em uma mudança monetária.

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