Cesp Tietê vai a leilão amanhã; BNDES vai financiar estrangeiros
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segunda-feira, 25 de outubro de 1999
Por Maria Fernanda Delmas e Cleide Sánchez Rodríguez 
São Paulo, 26 (AE) - O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) decidiu hoje financiar os grupos estrangeiros que vencerem o leilão de privatização da Companhia de Geração de Energia Elétrica Tietê (Cesp Tietê). A decisão, tomada em cima da hora, visa a evitar o esvaziamento do leilão, que se realiza às 9 horas de amanhã na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa).
"Queremos trazer competição ao leilão", disse o diretor de Desestatização do BNDES, José Luiz Osório. A intenção é tentar neutralizar o efeito Cemig na privatização da Cesp Tietê, a segunda produtora de energia resultante da divisão da Cesp a ser privatizada.
O rompimento do acordo de acionistas com os sócios estrangeiros privados da estatal mineira Cemig teriam deixado os grupos estrangeiros receosos quanto à repetição do problema em outras empresas privatizadas.
O próprio governador de São Paulo, Mário Covas, reconheceu a existência de "certa turbulência" em relação ao leilão, mas evitou comentar as decisões na Cemig. "Não quero entrar nessa história de Minas, porque já tenho meus problemas de São Paulo", afirmou.
Analistas do setor elétrico observam, no entanto, que as companhias internacionais gostariam de ter acesso ao financiamento que o BNDES criou para os compradores nacionais, equivalente a 50% do valor da empresa. "A decisão mostra que não estamos discriminando ninguém", disse o diretor do BNDES. Segundo ele, o BNDES estuda financiar grupos estrangeiros em outras privatizações, mas analisando caso a caso.
Somente em outros três leilões, grupos estrangeiros receberam dinheiro do BNDES: na venda da Companhia Elétrica da Bahia (Coelba), da gaúcha Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) e da Eletropaulo Metropolitana.
Concorrentes - Com apenas um concorrente nacional, a VBC Energia, holding formada pelos Grupos Votorantin, Bradesco e Camargo Corrêa, os outros são todos estrangeiros. "O episódio da Cemig realmente causou mal-estar, mas o dinheiro do BNDES vai ajudar muitas dessas companhias", disse o vice-presidente do banco de investimentos Lehman Brothers, Charles Barnett.
Empresas como a Duke Energy e Reliant, que desistiram de disputar o leilão, são conservadores e suscetíveis a problemas políticos. A Reliant (ex-Houston) anunciou hoje a sua desistência, mas informou que não foi por causa do caso Cemig. Barnett também considerou difícil a American Electric Power (AES) participar da privatização da Cesp Tietê.
Para outras empresas, como a norte-americana AES ou a Tractebel ,a história é diferente. A primeira, por ser produtora independente de energia, é mais agressiva no mercado e já conhece o Brasil. "A AES tem plantas até no Paquistão; portanto
já está habituada a problemas políticos". A segunda também tem um perfil diferente, por ser mais agressiva.
O executivo do Lehman Brothers afirmou que as duas companhias, especialmente a AES, já têm investimentos no Brasil e o financiamento do BNDES vai ajudar bastante numa eventual compra da Cesp Tiete. Mas, para ele, a grande favorita é a VBC Energia, que, além de contar com o financiamento do BNDES, tem folga de caixa da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) para arcar com novas aquisições.
A CPFL pertence à VBC e é uma das maiores compradoras de energia da Cesp Tietê. A outra é a Eletropaulo Metropolitana, que tem a AES entre seus principais acionistas. Ambas obteriam ganhos de escala significativos com a compra da Cesp Tietê, que, além de tudo, "é boa empresa, com bons ativos, nível de endividamento adequado e quadro de funcionários (726) relativamente ajustado", disse Barnett, acrescentando, porém, que não deve se repetir o ágio de mais de 90% obtido com a venda da Cesp Paranapanema. Ele acredita em algo em torno de 30%.
O governador Covas também está realista. "Para nós, qualquer resultado que esteja dentro dos limites que fixamos como mínimo para a Tietê satisfaz".


