Cervejarias voltam a trocar acusações
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quinta-feira, 09 de março de 2000
Por Renato Andrade 
Brasília, 10 (AE) - A trégua entre as cervejarias durou pouco. O presidente da Kaiser, Humberto Pandolpho, acusou hoje o advogado da AmBev, Carlos Francisco Magalhães, de ter retirado cerca de 2.110 páginas das cópias dos documentos que estão sendo analisados pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e que seriam entregues aos advogados da cervejaria concorrente. Pandolpho também acusou mais uma vez a relatora do processo no órgão, Hebe Romano, de ter atuado de forma parcial na questão. A direção da Kaiser prometeu entrar nesta segunda-feira com um ação na Justiça pedindo o afastamento da conselheira e o acesso total aos documentos. O advogado da AmBev disse que irá pedir retratação no caso.
Pandolpho afirmou que seus advogados - Túlio Egito e Carla Lobão - viram o advogado da AmBev retirando os documentos. "Isso parece coisa da ditadura", ironizou. Carlos Magalhães, por sua vez, questiona a acusação. "Foi uma ignorância jurídica grande; ele não está se valendo dos ótimos advogados que tem", afirmou. De acordo com o advogado da AmBev o procedimento adotado foi regular.
Segundo Magalhães, após saber que a direção da Kaiser havia solicitado "vistas totais" dos autos do processo, os advogados da AmBev encaminharam petição à relatora do processo pedindo que os documentos não fossem apresentados aos advogados da empresa concorrente. Caso a relatora não acatasse essa solicitação, os advogados da AmBev pediam ainda, na mesma petição, um prazo de 48 horas para que as páginas que trouxessem informações confidenciais e estratégicas sobre a nova companhia fossem retiradas.
"Passei quatro horas indicando no processo as páginas que deveriam ser retiradas, só isso", afirmou Magalhães. O presidente da Kaiser insiste, no entanto, que os advogados da cervejaria viram Magalhães retirando as folhas das cópias que seriam entregues à Kaiser. "As nossas cópias já estavam prontas
tinhamos efetuado o recolhimento do número total de páginas dos autos", disse. "Com a retirada feita pelo advogado da AmBev continuamos discutindo sobre a mesma caixa-preta", acrescentou Pandolpho.
O executivo disse ainda que a conselheira Hebe Romano teria afirmado que a Kaiser só deveria questionar o acesso aos documentos por meio de mandado de segurança. "Está claro que ela não tem mais neutralidade neste caso", afirmou. Até o fechamento desta edição a conselheira Hebe Romano não havia retornado as ligações feitas pela reportagem.
Reuniões - Durante todo o dia de hoje o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Alcides Tápias, esteve reunido, em audiências separadas, com representantes da Kaiser, Schincariol e AmBev. Segundo o presidente da Antarctica, Victório De Marchi, na próxima semana o ministro deverá encaminhar ao Cade as sugestões que foram colhidas nas reuniões realizadas com os representantes das cervejarias do País. Marchi não acredita que este novo documento poderá alongar ainda mais o período de análise do processo de fusão pelo Cade.
A expectativa é de que o Conselho divulge seu relatório final sobre o caso ainda este mês. Segundo uma importante fonte do governo, a tendência é de que a fusão seja aprovada, mas com a delimitação de uma série de restrições regionais à nova empresa. "Em regiões onde a AmBev terá uma alta concentração de mercado podemos sugerir a venda de alguns ativos para as pequenas marcas", afirmou a fonte.
Tápias esteve reunido hoje com o diretor comercial da Schincariol, Francisco Flora Neto, que deixou o ministério afirmando que a fusão não trará prejuízos para sua companhia. Atualmente, a Schincariol detém 9% do mercado brasileiro de cerveja, e terá, a partir de abril, uma capacidade de produção anual de 16 milhões de hectolitros com a inaguração de sua nova unidade, que será instalada no Rio de Janeiro.
Segundo Flora Neto, a empresa também é uma "potencial compradora" de ativos da AmBev, caso essa seja uma das decisões tomadas pelo Cade. O presidente da Kaiser, Humberto Pandolpho, também voltou a frisar que continua interessado na compra de ativos da nova companhia. Ele se comprometeu ainda a garantir os empregos hoje existentes na empresa que eventualmente vier a comprar.


