Cerrado brasileiro, a riqueza negligenciada
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sábado, 27 de novembro de 1999
por Liana John 
Canmpinas, SP, 27 (AE) - Em 30 anos de ocupação com pecuária extensiva, monoculturas de exportação e estradas de integração nacional, os cerrados brasileiros alcançaram um nível de destruição imensamente superior a qualquer alteração humana dos últimos 30 mil anos, somados. Ainda que as primeiras incursões ao Planalto Central remontem ao século XVIII, as grandes fazendas só se implantaram de fato com o início da construção de Brasília. Logo de início, a nova capital destruiu o habitat de um pequeno roedor, descrito em 1960 como um novo gênero, ironicamente nomeado Juscelinomys candango, numa dupla homenagem ao presidente Juscelino Kubitcheck e aos operários construtores da capital. Não há registros do ratinho, na natureza, há 30 anos, o que o torna virtualmente extinto.
Hoje, o Cerrado se apresenta como um grande mosaico de culturas e pastagens plantadas, intermeadas por fragmentos dos ecossistemas originais. Ainda preserva uma surpreendente biodiversidade e altíssimo grau de endemismos. Mas corre o risco de repetir a história do ratinho, em diferentes pontos dos seus 1,78 milhão de quilômetros quadrados originais, 78,4% dos quais já foram alterados pelo homem.
O Cerrado inclui diversos tipos de vegetação, abertas - campos limpos, sujos e rupestres - e fechadas, como o cerrado e cerradão. Mas nenhuma delas parece ser mais crucial, no atual estágio de avanço do homem, do que as matas de galeria, nas margens dos rios, justamente um dos tipos de vegetação mais atingido pelos desmatamentos. As matas de galeria são fundamentais para a preservação dos recursos hídricos, num meio onde as chuvas são relativamente abundantes - 1.100 a 1.200mm ao ano - mas muito mal distribuídas. Também tem a função de formar corredores entre os fragmentos de vegetação nativa, utilizados como passagem para a fauna e como meio de dispersão de plantas.
No Cerrado vivem 10 mil espécies de plantas, 44% das quais são espécies endêmicas (só existem ali) e 33,7% pertencem a gêneros confinados na região. Quase todas as espécies herbáceas são endêmicas. "Esta foi uma das grandes surpresas de nossa pesquisa, já que o cerrado nem constava no estudo anterior
de Norman Myers", comentou Russell Mittermeier, da Conservation International, CI. A diversidade de fungos é igualmente impressionante. Calcula-se 6 espécies de fungos diferentes para cada planta hospedeira, ou seja, numa estimativa muito conservadora, pelo menos 24 mil espécies de fungos.
Entre os invertebrados, as borboletas imperam, Estima-se 10 mil espécies vivendo no Cerrado, o correspondente a um quarto do total de espécies conhecidas na região neotropical. São ainda 129 espécies de térmitas e cupins, 139 vespas, 100 formigas, e 809 abelhas, das quais 420 só foram coletadas no cerrado.
A riqueza em espécies de vertebrados é igualmente alta, ainda que haja menos endemismos: 837 espécies de aves, 161 mamíferos, 150 anfíbios e 120 répteis vivem no Cerrado, sendo o percentual de endemismos dos anfíbios o mais alto, 30%. Diversas espécies tem uma área de distribuição bastante restrita, como o ratinho de Brasília, por isso a riqueza biológica depende muito de ações concertadas com o conhecimento científico.
Alguns mamíferos e aves são considerados símbolos do Cerrado. O tamanduá-bandeira, por exemplo, chega a quase 2 metros de comprimento e tem a anatomia adaptada para se alimentar de formigas e cupins, cujo número de espécies chega a 130 na região. O inofensivo, discreto e quase vegetariano lobo-guará e o ameaçado tatu-canastra, o maior do gênero, com cerca de 1 metro de comprimento, são outros dois símbolos, assim como as grandes aves: ema e seriema.
Valor - "Felizmente, no Brasil, a sociedade começa dar à biodiversidade o valor que ela merece ter, e é até mais disposta a reconhecer este valor do que a sociedade norte americana, por exemplo", observou Mittermeier. "Por isso são boas as perspectivas de se conseguir muita coisa em termos de proteção aos hotspots". Para o presidente da CI, em relação a outros países em desenvolvimento, que abrigam hotspots, o Brasil tem uma grande capacidade institucional, tem recursos humanos (técnicos de governo e ONGs organizadas), além de meios para captar recursos financeiros.
Mas ainda há muito por fazer, tanto na Mata Atlântica como no Cerrado. Este, até recentemente, foi considerado a alternativa ao desmatamento das florestas úmidas, mesmo por ambientalistas. Como consequência, tem apenas 1,1% de sua extensão original protegida em 19 unidades de conservação nacionais, que juntas, têm 2,2 milhões de hectares. A Amazônia - que não é um hotspot porque as taxas de destruição não superam 75% - já tem 6% de sua área protegida e mesmo a fragmentada Mata Atlântica tem 2,3%.
Além de poucas, as unidades de conservação do Cerrado são pequenas. Das 19, somente 7 têm mais de 100 mil hectares e a maior delas, o Parque Nacional do Mirador, de 700 mil hectares, existe só no papel. Muitas unidades importantes, como o Parque Nacional das Emas, também são constantemente atingidas pelo fogo. Ainda que a vegetação típica do Cerrado tenha evoluído com o fogo e seja adaptada para resistir às chamas - com suas cascas espessas, raízes profundas e folhas duras - a frequência com que os incêndios criminosos atingem as áreas protegidas põe em risco todo o esforço de conservação.


