Campo Grande, 10 (AE) - Os trabalhadores sem-terra acampados desde ontem (09) na entrada da sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em Campo Grande, já falam em adotar medidas radicais caso não tenham suas reivindicações atendidas. São cerca de 800 trabalhadores, oriundos de 45 municípios do Mato Grosso do Sul, que lutam pela liberação de recursos para os assentados e aumento do crédito para agricultura familiar, entre outros itens contidos em uma pauta elaborada pela direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e entregue, ontem, em Brasília, ao ministro de Política Fundiária, Raul Jungmann.
Hoje, os manifestantes alertaram os dirigentes locais do Incra sobre a possibilidade de serem adotadas medidas radicais caso as negociações se prolonguem. Passeatas no centro da cidade, invasões de fazendas improdutivas e até mesmo a ocupação da sede do Incra são algumas das propostas discutidas, adiantaram. Reivindicações - Os sem-terra reivindicam a liberação de R$ 600 milhões para os projetos de assentamentos já implantados pelo instituto, aumento de 20% no valor dos créditos para a agricultura familiar do Fundo Constitucional do Centro Oeste, o assentamento de cinco mil famílias acampadas em barracas de lonas, ainda este ano no Estado e o fim de qualquer ato ou menção sobre a criação do Banco da Terra. Pedem, ainda, celeridade na conclusão dos projetos de assentamento e a solução das questões judiciais e ambientais que impedem o início da produção nos projetos de assentamentos.
Com relação a esse item, segundo os manifestantes, um exemplo é o que ocorre na Fazenda Caracol, de seis mil hectares, no município de Bela Vista, extremo norte de Mato Grosso do Sul. Em dezembro do ano passado, o Incra dividiu o imóvel em lotes e colocou no local 152 famílias de sem-terra, após estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) comprovar a viabilidade do projeto. Porém, na semana passada a Secretaria Estadual de Meio Ambiente, entregou ao líder dos assentados na fazenda, um relatório mostrando que o assentamento é incompatível com as normas que regem as relações entre meio ambiente, produção rural e o homem.
A área fica na margem do Rio Apa, ocupando uma faixa de 20 quilômetros com vegetação nativa onde vivem milhares de aves, répteis, mamíferos e anfíbios nativos que estão deixando o local por causa da aproximação com os assentados. Não existem estradas para o escoamento da produção e, caso sejam abertas, afirma a SEMA, serão transformadas em fontes de toneladas de areia, que descerão para o Rio Apa, assoreando o seu leito. Esgotos sanitários, agrotóxicos e corretivos do solo também terão a mesma destinação. O estudo da SEMA, conclui que o projeto de assentamento terá que ser desfeito e os assentados transferidos para outro lugar. O Incra acredita que não.
Segundo técnicos da sessão de cartografia e recursos naturais do órgão, a secretaria pode recorrer à Justiça para impedir o avanço do projeto. Os líderes do assentamento estão em Campo Grande, tentando resolver o impasse, com a ajuda dos advogados da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Ainda no extremo sul do MS, em Pedro Gomes, a Fazenda Esperança, com 9.118 hectares, continua ocupada por 180 famílias de sem-terra desde outubro do ano passado. Os invasores estão desrespeitando as ordens de despejo e já plantaram arroz e milho. Essa semana iniciaram a colheita dessas plantações, que será no total de 1,8 mil sacas de arroz e 700 sacas de milho.

mockup