Cerca de 40 mil pessoas fizeram fila ontem para ver o corpo de Frei Damião de Bozzano, de 98 anos, na Basílica da Penha, arredores do centro de Recife (PE). O frade morreu às 19h20 de sábado, após ter passado 19 dias em coma decorrente de um derrame cerebral. Em determinados momentos, a fila em torno da igreja chegou a ter aproximadamente 2 quilômetros de extensão. A maioria era de pessoas idosas, mas também havia jovens.
Ao passar pelo corpo (que estava protegido por quatro policiais militares) muitos não resistiam e choravam. Pelo menos dez mulheres desmaiaram. ‘‘Para nós, acabou a metade do mundo’’, disse Maria José da Silva, 59, de Caruaru (130 km de Recife). Até as 18h, porém, a situação era calma, sem nenhum incidente.
Caravanas de devotos vindas de outros Estados do Nordeste começaram a chegar de manhã. A movimentação foi tranquila nas estradas, segundo a Polícia Rodoviária Federal, que montou um esquema especial para evitar eventuais congestionamentos ou acidentes provocados pelos veículos dos outros Estados que se dirigiram para Recife.
Missas foram celebradas a cada duas horas, na praça em frente à basílica. Uma coroa de flores foi enviada em nome do ex-presidente Fernando Collor de Mello. ‘‘Frei Damião, saudade do seu devoto’’, são os dizeres da coroa. O frade apoiou a candidatura de Collor a presidente nas eleições de 1989. O vice-presidente Marco Maciel, que está em Recife, foi ao velório à tarde. Destacou que frei Damião ‘‘sempre esteve ao lado dos pobres e desvalidos’’ e informou que o presidente Fernando Henrique Cardoso havia decretado luto oficial de três dias.
O governador Miguel Arraes (PSB) e o prefeito de Recife (PFL), Roberto Magalhães, também decretaram luto no Estado e no município por três dias. A Polícia Militar montou uma operação especial com a utilização de mil policiais militares. O corpo do frade será velado na basílica até amanhã à noite. Na quarta-feira, de manhã, será levado para o estádio de futebol do Santa Cruz, no Arruda (zona norte), onde haverá uma missa de corpo presente. O enterro acontecerá à tarde, no convento de São Félix de Cantalice (bairro do Pina, zona sul), onde o frade vivia.
O local do enterro só tem uma rua de acesso, de sete metros de largura, e por isso os organizadores do ato resolveram que apenas religiosos, autoridades e convidados poderão participar, para evitar tumulto. Após o anúncio da morte de frei Damião, o bispo de Petrolina, dom Paulo Cardoso, disse que a notícia era ‘‘uma grande alegria’’. ‘‘Agora, teremos no céu mais um santo a orar por nós’’. Ainda sem prazo definido, a arquidiocese de Olinda e Recife pretende iniciar um processo para solicitar ao Vaticano a canonização de frei Damião.De acordo com as leis eclesiásticas, é exigido um prazo de cinco anos após a morte para que o pedido de canonização seja feito, mas a arquidiocese acredita que o Papa pode ‘‘dispensar essa exigência’’.
O presidente Fernando Henrique Cardoso vai assinar hoje decreto declarando luto oficial por três dias em virtude do falecimento de frei Damião. O presidente lamentou a morte de frade capuchinho, um dos sucessores de padre Cícero. ‘‘O Brasil perde um homem que dedicou sua vida aos pobres e aos despossuídos. Durante décadas, frei Damião levou aos brasileiros a mensagem de fé, esperança e solidariedade’’, disse ele, em mensagem transmitida pela Assessoria de Imprensa do Palácio do Planalto. Fernando Henrique designou o vice-presidente Marco Maciel para representá-lo nos funerais de frei Damião, na capital pernambucana.

mockup