Cerca de 250 soldados russos podem ter morrido em emboscada
Moscou, 03 (AE-AP) - A conquista da estratégica cidade chechena de Argun pela Rússia, hoje (030, foi ensombrecida na mídia russa por dois episódios que tendem a ter maior repercussão para o conflito nos próximos dias: a chacina de pelo menos 40 refugiados pelas tropas russas, perto da capital da Chechênia, Grozny, e a morte de cerca de 250 soldados russos emboscados pelas forças rebeldes na região de Urus-Martan.
Os refugiados estavam em um comboio de um ônibus e seis carros que saíra pela manhã de Grozny em direção à vizinha república russa da Ingushétia, em fuga dos pesados bombardeios russos contra a cidade. Depois de percorrer 3 quilômetros e chegar ao vilarejo de Goiti, o grupo se deparou com um destacamento russo, que abriu fogo com fuzis e metralhadoras, sem nada perguntar antes.
De acordo com uma das sobreviventes, Taísa Aidamirova, de 27 anos - que ficou levemente ferida -, os tiros atingiram o tanque de combustível do ônibus, que se incendiou. Quatro dos seis automóveis foram destruídos. Em seguida, os russos se aproximaram para prestar socorro a sete pessoas feridas, entre as quais uma mulher em estado grave, encaminhada a um hospital na Ingushétia. O depoimento de Taísa coincidiu com o de outros sobreviventes hospitalizados e foi transmitido pela agência de notícias russa Itar-Tass, normalmente bem informada. Mas nenhum órgão do governo russo ou checheno a confirmou.
Já a emboscada sofrida pela unidade russa, se confirmada, foi a maior baixa sofrida pelas tropas federais na atual guerra na Chechênia, caracterizada até agora por intensos bombardeios das forças federais e raros confrontos entre os exércitos - numa estratégia da Rússia para evitar repetir as elevadas perdas no conflito anterior. De acordo com o vice-ministro da Defesa da Ingushétia, Ali Dudarov, cerca de 250 soldados russos foram cercados por rebeldes chechenos e derrotados após um pesado combate nas proximidades de Urus-Martan, situada 20 quilômetros a sudoeste de Grozny. Duzentos russos morreram na batalha e os outros 50 foram presos e depois executados, segundo Dudarov, que disse ter obtido a informação de funcionários russos na fronteira checheno-ingushétia.
Esse teria sido o real motivo, conforme explicou, do fechamento dessa passagem pela manhã, principal rota de saída da Chechênia. O alto comando russo relatou as perdas de apenas 7 soldados na batalha pela captura de Argun e justificou o fechamento da fronteira por uma pane nos computadores que registram a entrada de refugiados. Nenhuma autoridade militar fez comentários sobre a emboscada.
Os militares russos avançaram no cerco a Grozny com a conquista de Argun, localizada 8 quilômetros no flanco sul da capital. Foi a terceira mais importante cidade chechena a cair em mãos russas - as outras foram Gudermes e Achkoi-Martan, também na periferia de Grozny. A cidade estava sob intenso bombardeio e ainda tem focos de resistência, segundo a Itar-Tass.
No ataque a Argun teriam morrido de 30 a 50 militares russos na quinta-feira, segundo a agência militar AVN, com sede em Moscou. O Ministério da Defesa da Rússia desmentiu essas baixas. Os correspondentes das agências estrangeiras na Chechênia salientam que é difícil confirmar o número de mortos e feridos nos combates e ataques aéreos, dada a disparidade nos números apresentados por ambas as partes.
Em Moscou, o presidente Boris Yeltsin afirmou que a Rússia não voltará atrás em sua ofensiva contra o "terrorismo internacional" na Chechênia, apesar das críticas feitas por países ocidentais.
"Russos! Nosso país emergiu mais de uma vez com honra de situações difíceis. Deixem que os terroristas internacionais saibam disso. E desta vez não entregaremos um centímetro de nossa terra", disse Yeltsin através de um comunicado distribuído pelo Kremlin.
Também hoje, as autoridades moscovitas reforçaram as medidas de segurança em locais públicos, escola e prédios de apartamentos, temendo a repetição da onda de atentados que causou a morte de quase 300 pessoas em agosto e setembro. Esses ataques e a invasão dos rebeldes islâmicos à república russa do Daguestão levaram a Rússia a invadir a Chechênia, sob o pretexto de destruir as bases dos guerrilheiros.
As iniciativas para um diálogo são poucas e pouco promissoras. A Câmara Baixa do Parlamento russo (Duma) aprovou hoje em primeira leitura um projeto de lei que concede anistia aos rebeldes que entregarem as armas até o dia 30. em Grozny, o presidente checheno, Aslan Maskhadov, voltou a propor um plano de paz ao Kremlin e advertiu que pedirá "ajuda militar estrangeira" se Moscou rechaçar sua proposta.





