Cerca de 100 mil argentinos se alimentam de restos
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quinta-feira, 27 de junho de 2002
France Presse 
Buenos Aires - A crise econômica argentina mudou o cotidiano de pelo menos cerca de 100 mil pessoas, que hoje sobrevivem em Buenos Aires à base de restos alimentares ou trocam papelão, papel e vidro por moedas em empresas que trabalham com esses materiais.
Essa atividade se converteu nos últimos anos na única fonte de renda de milhares de famílias, segundo a assessora de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa da Cidade de Buenos Aires, Fabiana Rousseaux.
Transformados em agentes ecológicos involuntários, eles recolhem o lixo e separam o material reciclável para ser vendido em uma corrida contra o relógio que começa ao cair da tarde e termina à meia-noite, quando os lixeiros recolhem o lixo.
Rosseaux informou que nos últimos anos a quantidade de pessoas que lutam diariamente para conseguir renda dessa forma duplicou, apesar de a atividade ser considerada ilícita pelo regulamento urbano.
A cada noite, um silencioso exército percorre as principais ruas da cidade em carros improvisados puxados por cavalos ou bicicletas. Segundo Rosseaux, os catadores de papel enfrentam as ameaças da polícia e, em alguns casos, lhes pagam propina para trabalharem sem serem incomodados. De acordo com denúncias do Legislativo portenho, sabe-se que muitos dão à polícia cerca de 20 pesos semanais para impedir a expropriação de seus carros.
Atividade antes reservada aos chefes de família, a gradual deterioração da situação econômica na Argentina está levando famílias inteiras a participar da coleta de lixo.
Nas portas de lanchonetes e restaurantes, a distribuição solidária de alimentos se tornou uma prática comum, que evita que os sacos de lixo sejam rasgados posteriormente em frente às lojas.
Em alguns bairros da cidade, os vizinhos colaboram com os catadores retirando de seu lixo todo objeto que possa ser reciclado, não por questões ecológicas, mas por um sentimento de solidariedade que perpassa todas as camadas sociais argentinas.
O aumento constante do número de pessoas que buscam no lixo um meio de renda está gerando uma luta pela propriedade do lixo. A Cidade de Buenos Aires destina 200 milhões de pesos (50 milhões de dólares) de seu orçamento anual para custear a coleta de lixo por uma empresa privada, a Cliba, cujo lucro é medido por tonelada de lixo. Com a recessão argentina, a atividade dos catadores de papel ganhou uma dimensão tal que gerou um protesto da empresa encarregada do serviço. De acordo com as cláusulas da licitação, o lixo depositado na rua é propriedade da empresa coletora. Ainda segundo o contrato, os catadores praticam roubo quando revolvem o lixo em busca de papéis, vidros, latas ou restos de comida.
Para atenuar o prejuízo, a Cliba criou um serviço especial de coleta seletiva de lixo porta a porta no bairro portenho de Once, centro comercial onde são despejadas centenas de quilos de papelão e papel por dia.


