Nova York, 22 (AE) - No final de semana, no perigoso bairro do Harlem, um assaltante invadiu o apartamento de uma velhinha de 82 anos. O bandido deu-lhe quatro facadas, saqueou e ateou fogo na casa - mas a polícia apareceu e salvou a senhora. Já identificou e caça o assaltante. Foi o único incidente violento no período. Hoje (22), o jornal The New York Post, que adora sangue, não teve nenhum homício para relatar.
O trágico episódio da velhinha revela um lado da eficiência em "Rudyville", a "cidade policial" bolada pelo prefeito Rudolph Giuliani: nela, em média, bombeiros levam 4 minutos para aparecer num incêndio, e a polícia atende chamados em 10.
Mais números: em 1998, NY teve 631 assassinatos, enquanto São Paulo, no último carnaval, teve 230 - se a festa continuasse por duas semanas, morreriam mais pessoas do que durante o ano todo na "capital do mundo". Mais importante do que chegar na hora de um crime é a política de prevenção da NYPD (sigla para New York Police Department). Seus resultados no combate ao crime são considerados os melhores do mundo.
Entre NY e SP, ante o mesmo problema de drogas e violência, qual a diferença na ação policial? Giuliani tem todo dinheiro que precisar. Giuliani adota a política de tolerância zero, com o Judiciário absorvendo a trabalheira de processar até quem pula a roleta do metrô. No sistema americano, a polícia é responsabilidade municipal. Assim, Giuliani tem autoridade para cobrar do policial na rua - e ele o faz.
Toda delegacia precisa terminar o mês com resultados. O comando exige do agente, de acordo com sua área e função, um número mínimo de prisões, de apreensão de armas ou drogas, recuperação de carros roubados e solução de assassinatos.
as emergências, se um "carnaval" tivesse ocorrido em Nova York, a polícia teria destacado força extra para as regiões mais violentas. Ela faz assim no East Bronx. E poria lá sua temível "SCU", sigla em inglês para "unidade de (combate aos) crimes de rua". A SCU é um grupo de elite, que opera à paisana. São 400 dos 40 mil agentes da NYPD, recrutados entre os mais destemidos e agressivos, em sua maioria brancos - só 10% negros ou latinos, contra 30% no geral da força.
O SCU de "Rudyville" é como um grupo de comandos. Na guerra das ruas, não precisa cumprir os regulamentos, nem respeitar os direitos civis dos cidadãos. A Anistia Internacional e entidades americanas de direitos humanos já protestaram várias vezes, mas o prefeito não cede. O povo reconhece sua eficiência, tolerando sua violência e racismo. O grupo tem um quartel incógnito numa ilha entre Queens e Manhattan. Seus agentes usam carrões modificados e armamento especial. Como agem? Toda noite, os "donos da noite", como se apelidam, saem às ruas em carros com chapas frias, nas zonas onde há tráfico de drogas - a NYPD estima que 80% dos crimes que ocorrem na cidade têm origem no tráfico.
Os objetivos dos comandos são apreender armas e drogas e caçar bandidos procurados. Método mais fácil: revistando pessoas, escolhendo seus alvos por instinto. Nos dois últimos anos, os cowboys, outro apelido da turma, aprenderam 20 mil armas, em 40 mil revistas aplicadas no povão, em bairros de negros, latinos e imigrantes.
Estudos mostram que tal desarme da população noturna reduz a criminalidade. Às vezes, dá zebra: no dia 4, quatro agentes brancos mataram com 41 tiros um imigrante de Nova Guiné, muçulmano e negro, no Bronx. O caso está causando furor político, mas apenas entre imigrantes, muçulmanos e negros - ainda não comoveu a parte branca da sociedade.
Em 1998, agentes uniformizados da NYPD sodomizaram um imigrante negro numa cadeia do Brooklyn. Houve clamor geral no país. Rudyville ordenou um retreinamento de toda polícia, inclusive SCU, para dotar o pessoal de "maior sensitividade com as minorias". Na semana passada, depois da morte do imigrante, agora pelo SCU, nova ordem de retreinamento. Os policiais do caso do Brooklyn ainda não foram a julgamento. Os do SCU podem nem ir, se conseguirem provar que 41 tiros num negro desarmado foi acidente de trabalho - pensaram que ele era um bandido, mas tinha ficha limpa. O incidente está começando a virar o apoio popular contra a SCU. Calcula-se que para cada bandido preso, eles revistam nas ruas cinco pessoas inocentes, violando seus direitos. Para piorar, o método só é aplicado nos bairros de minorias, alimentando a discriminação racial. Nas escolas do Bronx, crianças negras e latinas são orientadas em classes especiais a como se comportar durante uma revista da SCU.
Giuliani não dá bola e mostra resultados. Em 1997, a SCU saiu em peso às ruas do Lower Manhattan, depois que um estupador atacou várias mulheres. O bandido sumiu. Em Washington Heights, uma quadrilha assaltava entregadores de pizzas. Uma equipe do SCU passou a fazer entregas - um tiroteio com a bandidagem e fim dos assaltos.
A última de Giuliani: a meia-noite de ontem ele botou em vigor uma lei que dá direito à polícia de confiscar o carro de quem dirige intoxicado - na madrugada, um Toyota de um bebum já passou a fazer parte do patrimônio do município.

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