Centrais sindicais pressionam Cade para barrar AmBev
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quinta-feira, 27 de janeiro de 2000
Por Liliana Pinheiro 
São Paulo, 27 (AE) - A Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Força Sindical vão, nos próximos dias, voltar a pressionar o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), e o ministro da Justiça, José Carlos Dias, para que o governo impeça a fusão da Brahma com a Antarctica ou encontre alternativas para preservar 15 mil empregos diretos e outros 50 mil indiretos, especialmente na distribuição. Entre as alternativas, segundo a Força Sindical, está a entrega da marca Antarctica (com fábricas e toda a sua linha de produtos) para os trabalhadores. Os anúncios foram feitos hoje, depois de um inédito encontro entre o segundo principal executivo da Kaiser, Augusto Parada, com o presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva.
Parada, na sua busca de apoio para evitar a concentração de mais de 70% do mercado de cerveja na mão da AmBev, havia visitado a sede da CUT na quarta-feira, onde encontrou-se com o secretário-geral da central, João Felício e vários outros sindicalistas. O diretor da Kaiser disse que saiu muito satisfeito das duas reuniões. "A conclusão desses encontros foi de que a luta pelo emprego é, antes de tudo, a luta pela livre concorrência", afirmou.
Parada disse ainda que a Kaiser estuda a possibilidade de pedir nova audiência com o presidente do Cade, Gesner de Oliveira, acompanhando a decisão das centrais sindicais - tanto a CUT quanto a Força Sindical anunciaram solicitação de audiências com Gesner.
Segundo o secretário-geral da CUT, João Felício, a iniciativa de voltar ao Cade nada tem a ver com a visita do executivo da Kaiser, e sim com o cronograma do governo para analisar a fusão. Ele lembrou que a Secretaria do Desenvolvimento Econômico do Ministério da Justiça divulgará na semana que vem seu parecer sobre a fusão. A partir desse parecer
o Cade vai julgar o caso. "Sempre fomos contra a fusão e nunca deixamos de lutar contra o monopólio do mercado de bebidas e a favor da manutenção dos empregos." Segundo Felício, a primeira luta da CUT é contra a fusão. Só depois de julgado o caso, e se a AmBev for reconhecida pelo Cade, é que a central analisará outras propostas, como a que prevê a criação de cooperativas de empregados para tocar fábricas fechadas.
Mas o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação da CUT, Siderlei Oliveira, já pensa em garantias para as cooperativas. Ele afirmou que é função do Cade exigir que a Brahma e a Antarctica assumam compromissos reais com os trabalhadores em relação às fábricas que serão fechadas, caso a fusão se concretize.
"Na audiência com a direção do Cade, queremos garantias de que as fábricas fechadas por causa da fusão sejam repassadas para os trabalhadores, que estão dispostos a tocar a produção por meio de cooperativas, e que os detalhes disso sejam colocados num documento", afirmou. "Até agora a Antarctica prometeu muito, mas só nos jornais, sem nada por escrito."
Siderlei quer saber, por exemplo, qual marca a cervejaria vai doar para os empregados, se as fábricas serão cedidas em regime de comodato, se a empresa pagará pelos estudos de viabilidade econômica das cooperativas e outros detalhes. Ele reafirmou também que os trabalhadores das fábricas de Estrela, Montenegro e Getúlio Vargas (RS), e de Petrópolis (RJ) e Cuiabá (MT) já aprovaram a criação de cooperativas para assumir as fábricas. "Estamos já na fase de elaboração dos estatutos e discutindo se a cooperativa será nacional ou não", explicou o sindicalista da CUT.
Siderlei disse também que duvida que o Cade impeça o fechamento das unidades, consideradas já obsoletas. "Mas o Cade pode nos dar garantias, para que os empregos sejam preservados." Já o presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, afirmou, após o encontro com diretor da Kaiser, na sede da central, que não acredita na idéia cutista de cooperativas que operem com uma única marca, doada pela Antarctica - fala-se na Polar ou na Serra Malte, segundo o sindicalista. "A própria AmBev acaba com essa cooperativa quando julgar conveniente, porque terá o monopólio do mercado", disse.
Paulinho afirmou que, se é para fazer cooperativa, a única saída é investir em um empreendimento de grande porte. Por isso, decidiu pedir ao Cade que a Antarctica inteira seja dada aos trabalhadores, como forma de equilibrar o mercado de cervejas. "Todo mundo sabe que a Antarctica está falida e que terá apenas 8% das ações da AmBev", afirmou Paulinho. "AmBev não é a fusão de duas cervejarias, e sim uma simples compra que a Brahma está fazendo para dominar o mercado." Assim, segundo seu raciocínio, a marca Antarctica poderia ser repassada aos trabalhadores, que fariam uma cooperativa nacional para tocar o negócio.
Para Paulinho, o Cade tem outra alternativa: autorizar a fusão, mas garantindo todos os 50 mil empregos na distribuição dos produtos Brahma e Antarctica e também os 15 mil empregos diretos, nas fábricas das duas marcas. Do contrário, continuaremos denunciando que essa fusão é uma farsa e que haverá monopólio no mercado", afirmou.


