Centenas de estrangeiros em favelas
Para Alejandro Grimson, pesquisador da Universidade de Buenos Aires, é possível comparar a imigração boliviana ou paraguaia para Buenos Aires com o movimento migratório que existe no Brasil do Nordeste para o Sudeste.
A migração é provocada pelas oportunidades de trabalho. Diferente da imigração européia que a Argentina recebeu no início do século, o movimento atual não faz parte do projeto de desenvolvimento econômico, é fruto da distorção do modelo, afirma ele, que está escrevendo um livro sobre esse tema. Segundo Grimson, os imigrantes estão sendo usados como bode expiatório para justificar os problemas sociais do país.
Suzana Larregue, advogada especialista no assunto, disse que o Mercosul está longe de ter uma política de livre circulação de pessoas e integração populacional. Na Europa, isso demorou 30 anos, afirma Larregue. Para ela, que trabalhou como técnica do Ministério das Relações Exteriores, é falsa a polêmica sobre imigrantes ilegais feita pelo Ministério do Interior. O imigrante só é ilegal porque a área de migrações não regulariza a situação. Quem diz quem é legal ou não é o próprio ministério, explica a advogada. A política não deve ser para restringir a imigração, mas para integrar o ilegal na normalidade. Essas pessoas hoje trabalham sem registro, e os
patrões não pagam impostos trabalhistas.
O preconceito contra os imigrantes está aumentando. Um dos refrões cantados pelas torcidas rivais para provocar, nos estádios, os que apóiam o Boca Juniors, clube mais popular da Argentina, diz: Bostero, bostero
(torcedor do Boca), volta para a Bolívia e para o Paraguai, onde está sua gente.
Centenas de imigrantes legais e ilegais vivem na região metropolitana de Buenos Aires em favelas planas, onde as condições de vida são precárias. Algumas das chamadas villas (vilas) são comunidades paraguaias ou bolivianas dentro da capital argentina.
Na villa 21, habitada na maioria por famílias paraguaias, não há saneamento nem coleta de lixo. Lá não chegam contas de luz e de água. Ruim aqui, pior lá (no país de origem). Isso foi uma coisa criada pelo sistema, diz Guillermo Villar, 42 anos, paraguaio e líder comunitário do lugar. Aqui, quando a polícia acha um ilegal, cobra dinheiro e libera, afirma.
O carteiro Widen Cardenas, 24 anos, não precisou passar pelo constrangimento. Boliviano, ele mora na vila desde 1994. No primeiro ano, não tinha registro de residente. Entrei com visto de turista e depois regularizei minha situação. Nunca tive problema com a polícia. Sou agradecido a esse país pelas oportunidades que me deu.
Os imigrantes latinos na Argentina trabalham, como subempregados, nos setores de construção civil, serviços domésticos, comércio informal e agricultura. Antonio Javier, 25, paraguaio, conseguiu há meses seu visto permanente. Ele trabalha há dois anos no país como pedreiro. Quero ficar um tempo aqui, juntar dinheiro e voltar para o interior do Paraguai. Vou comprar uns animais e investir no campo, planeja Javier.
A imigração brasileira, pelo volume, não causa preocupação na Argentina. Segundo o consulado do Brasil no vizinho do Mercosul, a comunidade de brasileiros no país é de cerca de 30 mil pessoas. Existem brasileiros ilegais que trabalham como agricultores na região de fronteira.(A.G.)Arquivo FolhaEduardo Duhalde responsabiliza imigrantes pelo desempregoAgência Folha





