Cenários antecipam ajustes ou o fim da conversibilidade argentina
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quarta-feira, 14 de julho de 1999
Por Vladimir Goitia 
São Paulo, 15 (AE) - O plano de conversibilidade da Argentina
que mantém a paridade de 1 a 1 entre o peso e o dólar há pouco mais de oito anos, está com um "timing" limitado para ser aperfeiçoado ou acabar de vez. A opinião é do economista Carlos Pérez, diretor executivo da Fundação Capital, um dos três maiores e principais escritórios de consultoria do país. "Esse prazo é finito e vai terminar no verão argentino", alertou.
Em entrevista à Agência Estado, por telefone de Buenos Aires, o economista disse que a Argentina tem hoje o desafio de melhorar o plano de conversibilidade dentro da própria conversibilidade. Caso contrário, o mercado vai encarregar-se de ajustá-la fora dela. Indagado sobre o que seria um ajuste da conversibilidade fora da conversibilidade, Pérez não hesitou e respondeu: "Resolverá o problema da competitividade argentina por meio da desvalorização do peso".
De acordo com ele, a Argentina enfrenta hoje problemas de baixa competitividade, de alto déficit fiscal e de uma conta corrente ainda mais grave. O economista acredita que os preços argentinos têm problemas de ordem estrutural, mas eles podem ser resolvidos dentro do plano de conversibilidade por meio da redução de custos e de reformas profundas que o país vem exigindo há muito tempo.
"O novo governo, independentemente de quem venha a ser eleito presidente, vai ter de acelerar as reformas trabalhista e fiscal e reduzir urgentemente os preços dos serviços de infra-estrutura", afirmou Pérez. Para o economista, se esses ajustes não forem feitos nos primeiros meses do novo governo, a conversibilidade argentina será inevitavelmente pressionada e o ajuste acabará sendo feito pelo próprio mercado. "Já sabemos como terminam essas pressões", afirmou, sem citar o caso brasileiro e o mexicano.
Embora acredite que o país esteja, no momento, longe dessa situação, Pérez disse que a Argentina entrou na pior fase do último ano de mandato do governo Menem. Mas, acrescentou o economista da Fundação Capital, o maior problema hoje é saber o que ocorrerá com a economia argentina no intervalo entre 24 de outubro, dia das eleições, e 10 de dezembro, dia da posse do novo presidente.
"Até as eleições de outubro, a recessão econômica vai se aprofundar e o país viverá uma incerteza econômica ainda maior, mas ainda com uma clara manutenção da conversibilidade (paridade), sem risco algum de mudança", afirmou. Segundo Pérez
além de a Argentina ainda estar em condições de financiar as suas necessidades pelo menos por mais 12 meses, o país também não está perdendo as suas reservas internacionais, como o Brasil
ao final do ano passado, e como o México, em 1994.
O economista afirmou que ainda existe o mesmo consenso nacional sobre a necessidade de manter da conversibilidade do que alguns anos atrás, embora o "timing" hoje seja muito diferente. "Não há mais espaço para lua-de-mel. O novo governo vai ter de atuar rápido ou será atropelado pelo mercado", insistiu o economista da Fundação Capital. Para ele, a possibilidade de uma desvalorização, no momento, é irracional, do ponto de vista analítico, e zero, no curto prazo, pelo menos até o presidente Carlos Menem deixar o cargo.
O economista da Fundação Capital explicou que a crise argentina deste ano (eleitoral) se diferencia em muito daquela de 1995 (também eleitoral), quando o "efeito tequila" acabou levando o país a uma recessão, com queda de quase 5% no PIB.
De acordo Carlos Pérez, a crise hoje é econômica e não financeira, como daquele período. Para ele, a visualização de uma recuperação hoje é bem mais difícil do que em 1995, quando o sistema financeiro argentino havia verificado perdas de 20% nos depósitos, com uma fuga de divisas que chegou a US$ 8 bilhões.
"Em 1995, o mercado sabia que Menem seria reeleito, o que representava a manutenção do plano econômico. Mas, hoje, não se sabe quem vai sucedê-lo, razão pela qual as incertezas políticas e econômicas não param de crescer", afirmou o diretor executivo da fundação.
Outra diferença em relação àquele período citada pelo economista, é a vulnerabilidade externa. "Naquele ano, a Argentina conseguiu exportar a sua recessão para um país chamado Brasil, que vinha experimentando um forte crescimento devido à implantação do Plano Real." Segundo ele, o Brasil hoje não mais representa uma saída para a Argentina. "Não apenas por causa da desvalorização do real, mas também porque o economia brasileira vive um processo recessivo."


