Cenário externo e frustração local puxam risco Brasil
São Paulo, 27 (AE) - O C-Bond - título da dívida externa brasileira de maior liquidez entre todos os emergentes no mercado secundário em Nova York - voltou a ser negociado com taxa de risco ("spread over treasuries") superior a 1.000 pontos-base nos últimos dois dias da semana passada, após duas semanas de sensível queda abaixo desta marca. Na sexta-feira, o C-Bond era cotado no final do dia a 997 pontos-base para compra e 1.000 pontos para venda, tendo atingido 1.020 pontos durante os negócios. A deterioração deste prêmio de risco é atribuída à forte turbulência do mercado de títulos do Tesouro norte-americano, referência básica das cotações do C-Bond e demais Brady Bonds de mercados emergentes; maior retração dos investidores internacionais que fecharam a semana atentos à proposta de reestruturação da dívida externa do Equador; e a constatação de que o último trimestre do ano vai estrear ainda nesta semana, sem que o governo FHC tenha conseguido aprovar algumas medidas consideradas cruciais para o ajuste fiscal.
O governo em geral e o presidente Fernando Henrique Cardoso em particular botam fé na aprovação de projetos importantes em outubro. Mas a expectativa já existia na virada de agosto para setembro e foi exatamente na cola do entusiasmo oficial - claramente manifestada a partir do fiasco da Marcha dos 100 Mil e da desmobilização e posterior derrota da bancada governista em sua pretensão de renegociar uma dívida bilionária com perdão de 40% do principal - que o prêmio de risco do C-Bond caiu forte no início deste mês.
Operadores alertam que a perversa combinação de ceticismo quanto à possibilidade de o governo brasileiro promover uma reforma fiscal consistente, insegurança quanto aos rumos da Bolsa de Nova York, e receio de a reestruturação da dívida equatoriana em "bradies" desembocar num pequeno mas ruidoso calote aumenta a tentação dos investidores internacionais em reduzir sua exposição ao risco latino - ou exigir prêmios maiores para mantê-lo em carteira. No final da semana, a preocupação com a dívida do Equador foi agravada pela declaração do vice-diretor-gerente do FMI, Stanley Fischer. Ele garante que o FMI e os países membros do G-7 só irão ajudar financeiramente o Equador depois que os credores privados e o país esgotarem todas as tentativas de negociação.
O FMI - avalista do Brasil no pacote de ajuda financeira superior a US$ 40 bilhões, dos quais quase US$ 20 bilhões já incorporados às reservas internacionais - reconhece que a reestruturação da dívida equatoriana terá impacto no fluxo de capitais para os mercados emergentes. Esta percepção não é nada tranquilizadora para o mercado doméstico, que, espantado com a queda vertiginosa da Bolsa de Nova York nos últimos dias e com a fuga de investidores para os títulos do Tesouro norte-americano, passou a pressionar o câmbio. Nos últimos dois dias - que coincidem com o repique do "spread over treasuries" do C-Bond a 1.000 pontos-base - o dólar esticou e, na sexta-feira, atingiu R$ 1,92 para fechar a R$ 1,91.





