Células-tronco regeneram músculo cardíaco
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quinta-feira, 23 de setembro de 2004
Roberta Pennafort<br>Agência Estado 
Rio- A injeção de células-tronco no coração de pacientes cardíacos graves além de criar novos vasos sanguíneos é capaz de regenerar o tecido muscular do órgão, constataram médicos do Hospital Pró-Cardíaco, do Rio. O estudo que deu origem à descoberta é inédito no mundo e pode dar nova esperança a doentes que precisariam de transplante.
A equipe, formada por especialistas do hospital e da Universidade Federal do Rio de Janeiro, vem pesquisando desde o fim de 2001 a utilização de células-tronco retiradas da medula óssea do próprio paciente e aplicadas em áreas do coração que sofreram isquemia. Dois meses após a aplicação foi verificado o surgimento de novos vasos, garantindo maior irrigação do órgão.
Passado um ano surgiram células no músculo cardíaco, mostram exames feitos num paciente que acabou morrendo (de acidente vascular cerebral) e o monitoramento da atividade elétrica do coração de outros quatro pacientes submetidos a esta técnica. ''Ficamos muito surpresos. O aparecimento de novas células musculares foi muito além do que esperávamos'', disse Radovan Borojenic, professor do Centro de Ciências Biomédicas da UFRJ.
As células-tronco são injetadas diretamente no coração. A aplicação é feita depois que um sistema de mapeamento determina a localização exata do ponto a ser regenerado, que deve conter células de músculos cardíacos e vasos, usados como ''modelo'' para as células-tronco.
O quadro de quatro dos cinco pacientes submetidos ao tratamento melhorou tanto que eles não precisam mais de transplante. O grupo também passou com folga no teste ergonométrico: todos apresentaram capacidade semelhante à de pessoas que jamais tiveram qualquer problema cardíaco.
Nelson Águia, de 70 anos, que, antes da terapia não conseguia subir escadas ou caminhar, hoje percorre quatro quilômetros em dias alternados e joga futebol duas vezes por mês. Graças à filha médica, que o inscreveu no estudo, ele mudou sua vida depois de sofrer dois infartos. ''Já não tinha condições de ser operado e minha única chance era o transplante. Fiquei um ano na fila'', contou. ''Hoje viajo, brinco com meu neto e retomei o trabalho.''
Os médicos acreditam que o processo de formação de novo tecido continua em andamento, mesmo muito tempo depois da inserção. ''A melhora clínica dos pacientes continua meses depois de terminada a terapia'', disse Hans Dohmann, coordenador da pesquisa e diretor científico do Pró-Cardíaco. Ele estima que em dois ou três anos a terapia poderá ser aplicada em larga escala em pessoas que sofrem de cardiopatias graves.


