Celular transformam as vilas de Bangladesh
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2000
Por Farid Hossain 
Jolarpar, Bangladesh (AE-AP) - Sentada do lado de fora de sua cabana com paredes de barro, Jamirunnesa faz uma ligação coma seu telefone celular Nokia para saber sobre a última cotação dos preços das aves.
Monir Chowdhury, um vizinho, chega ofegante para atender a um interurbano de seu irmão que trabalha na Malásia. Mais tarde, o médico da vila, Dr. Tofazzal Hossain chega para usar o telefone e marcar uma consulta com um especialista na cidade para um de seus pacientes.
Jamirunnesa administra um serviço de telefone celular, o único telefone para as 5 mil pessoas da vila rural de Jolapar, 30 quilômetros ao norte de Daca, a capital.
Ela adquiriu o aparelho há um ano com a ajuda de um banco que faz pequenos empréstimos para mulheres pobres, a fim de que iniciem negócios em suas próprias casa, um exemplo de "microcrédito".
Apesar de cobrar pelos serviços prestados aos seus vizinhos, o telefone ajuda da mãe de quatro filhos e 38 anos a ganhar dinheiro com a criação de aves de sua fazenda.
"Há compradores que querem me enganar. Mas eles não podem porque eu tenho o telefone, que é muito útil para saber a que preços o frango está sendo vendido nos mercados", diz Jamirunnesa, movendo seu aparelho.
Em Bangladesh, mesmo telefones normais continuam a ser um luxo. Menos de 1% do país, que tem 125 milhões de pessoas, tem telefone de algum tipo. Os 100 mil celulares do país pertencem geralmente ao ricos da zona urbana.
Jamirunnesa, que como muitos bengaleses usa apenas um nome, comprou o telefone com um empréstimo de 18 mil tacas (US$ 360) do Banco Grameen, que é especializado em auxiliar pobres a iniciar seu próprio negócio.
O Grameen Bank, estabelecido em 1976 por Muhammad Yunus, então um professor universitário de economia, é o pioneiro do microcrédito como uma forma de construção das economias de países em desenvolvimento. Desde sua fundação, já emprestou US$ 2 bilhões para 2,3 milhões de bengaleses, em sua maioria, mulheres pobres da zona rural.
A GrameenPhone, a subsidiária de telecomunicações do banco, é uma das quatro companhias comerciais de telefones celulares em Bangladesh, mas a única a estender seus serviços ao analfabetos que residem na zona rural.
"Um telefone já não é mais um luxo para os habitantes das vilas", diz Mehbub Chowdhury, que conduz o marketing dos telefones celulares. "É uma ferramenta para o crescimento econômico".
Jamirunnesa, que praticamente não tem educação formam, lucra, em média, US$ 50 por mês com seu serviço telefônico, o dobro da renda per capita de Bangladesh.
Quando ela pegou seu primeiro empréstimo, dez anos atrás, sua família não podia fazer três refeições por dia, uma situação enfrentada por cerca de metade de todos os bengaleses.
Ela usou o dinheiro para comprar uma vaca e rapidamente pagou o empréstimo com a venda do leite. Então, três anos atrás, ela emprestou US$ 200 para iniciar uma granja.
Agora, com a renda adicional do negócio telefônico, ela adquiriu um pedaço de terra para cultivo, comprou dois ventiladores elétricos para sua cabana e está colocando no banco parte de seus rendimentos.
"Dez anos atrás nós tínhamos perdido todas as nossas esperanças. Hoje, eu acho que a vida vale a pena", diz Jamirunnesa, usando um dos vários saris novos de algodão do seu guarda-roupa.
Desde que o primeiro celular de vila começou a funcionar em 1997, a GrameenPhone instalou este tipo de serviço em 1.114 vilas e planeja atingir mais 886 vilarejos este ano.
A companhia fornece um dia de treinamento para cada operador.
A única condição é que pelo menos um membro da família reconheça o alfabeto ocidental encontrado nas teclas do telefone.
Ao oferecer a franquia para mulheres pobres, o serviço também tem um impacto social ao mudar o tradicional controle dos ricos donos de terra sobre a economia e política rurais.
"Há algumas pessoas ricas que vêm até nós exigindo que entreguemos telefones celulares a eles", diz Abdus Sabir, funcionário do banco Grameen que coordena as operações na região onde Jamirunnesa mora. "Nós dizemos a eles: o telefone é exclusivamente para os pobres, não para os ricos".


