O combate ao atual modelo econômico do País será a principal tarefa das comunidades eclesiais de base (CEBs) nos próximos anos. De acordo com o documento final do 10.º Encontro Intereclesial, ‘‘o neoliberalismo tira dos pobres e excluídos o direito de sonhar’’, cabendo às comunidades a missão de ‘‘resgate do sonho’’ e ‘‘a construção de um projeto alternativo de sociedade’’. Na missa de encerramento do evento, no sábado à noite, o bispo da Diocese de Ilhéus, d. Mauro Montagnolli disse que ‘‘o grande demônio de hoje é o neoliberalismo.’’
A missa foi rezada diante da catedral de Ilhéus, no centro da cidade, com a presença de quase de 3 mil representantes das CEBs de todo o País e romeiros de cidades vizinhas. Havia cerca de 20 mil pessoas, segundo os organizadores. D. Mauro fez a referência ao demônio durante a homilia. Afirmou que as CEBs, ‘‘a grande força da sociedade na luta contra o arbítrio, no tempo da ditadura’’, agora estão sendo convocadas ‘‘para combater o demônio do neoliberalismo, que incentiva o egoísmo’’.
A seguir, durante uma parte do ritual da missa na qual os fiéis proclamavam comprometer-se com várias atividades no plano espiritual e material, o bispo perguntou-lhes: ‘‘Vocês assumem o compromisso de lutar como profetas contra o sistema de idolatria do mercado?’’ Com a mão direita para o alto, os presentes responderam: ‘‘Assumimos.’’ Em termos práticos, essa luta deverá tornar-se visível no processo eleitoral deste ano. O documento do encontro recomenda às CEBs que se movimentem para eleger ‘‘políticos comprometidos em administrações populares, com orçamento participativo.’’
O governo de Fernando Henrique Cardoso não foi citado diretamente no documento final. Mas as CEBs manifestaram seu descontentamento com a situação atual: ‘‘A concentração da renda e da terra, o processo de endividamento gerado pelas dívidas externa e interna, sem investimento no social e no setor produtivo, fazem com que nosso povo se torne cada vez mais dependente e pobre.’’ No interior da Igreja, a grande missão das CEBs, segundo o documento de Ilhéus, deve ser a luta contra a ‘‘centralização do poder’’. O texto não faz um pedido explícito para que as mulheres possam ser ordenadas como sacerdotes, mas critica o ‘‘machismo’’ na estrutura de poder e reivindica ‘‘a participação da mulheres nas várias instâncias de serviços e decisões’’ -o que inclui o sacerdócio.

mockup