Paris, 02 (AE) - A crise do frango, já chamada de "chickengate", causada pela constatação de que ovos e galinhas da Bélgica estavam contaminados por dioxina, fez com que a Comissão Européia determinasse hoje (02) a destruição das aves e ovos procedentes de mais de 400 granjas do país. O órgão, no entanto, descartou a possibilidade de embargo total dos produtos belgas. A medida, que se limita a mercadorias produzidas entre os dias 15 de janeiro e 1º de junho, inclui também todos os derivados em cuja produção tenham sido usados mais de 2% de ovos.
Na França, quatro departamentos produtores estão sob observação e em mais de 100 grandes granjas produtoras e exportadoras as vendas estão congeladas. Na Bélgica, onde se originou a crise, também as vendas de porcos estão suspensas, por causa da alimentação dos rebanhos suínos com farinhas animais que continham dioxina, um produto comprovadamente cancerígeno.
Hoje, já se constatava na França uma forte queda do consumo e venda do produto e seus derivados, especialmente ovos. Para que se tenha uma idéia do consumo, cada francês consome 260 ovos por ano, 25 quilos de frango. A população avícola na França é ligeiramente superior à sua população humana, 63 milhões aves que produzem anualmente 15 bilhões de ovos.
Nesse país, os Ministérios da Agricultura e da Saúde - este último bastante atingido no início do ano pelo escândalo do sangue contaminado - já haviam adotado medidas de precaução, neutralizando a distribuição de produtos alimentares contendo derivados de ovos ou de frango potencialmente contaminados. Os produtores franceses, grandes exportadores de frango, mesmo subsidiando suas exportações, estão muito preocupados com a concorrência. Eles temem alguns países emergentes, igualmente exportadores de frango, entre eles o Brasil. Essa crise poderá ser fatal para suas exportações, pelo menos a curto e médio prazos.
Mesmo adotando medidas de precaução, o ministro da Agricultura da França, Jean Glavany, tem advertido sobre a necessidade de "resistir à tentação de uma proibição de princípio". Por enquanto, a proibição da venda de frango e outros produtos derivados atinge 100 criadores de apenas quatro departamentos, mas essa medida poderá estender-se a outros produtores nos próximos dias. Para o ministro, a comunicação entre a França e a Bélgica funcionou bem. Inicialmente, os belgas advertiram para o problema e só no dia 28 comunicaram que a crise era bem mais grave e havia risco de o problema ter ultrapassado suas fronteiras, levando as autoridades de outros Estados europeus a adotar medidas de precaução.
O ministro Glavany defendeu-se da acusação de um comissariado europeu, segundo a qual ele já havia sido avisado há um mês - no dia 3 de maio -, por fax, da necessidade de adotar medidas de precaução, uma advertência que o ministério francês não havia levado tão a sério. O Centro Nacional para a Promoção do Ovo (CNPO), não exclui um outro risco: como a dioxina é um produto estável, seja qual for o processo de transformação utilizado, pode ser encontrada em toda a extensão da cadeia alimentar.
Não se pode esquecer também que o ovo é utilizado na preparação de um número considerável de subprodutos.
Diversas medidas foram adotadas pelos países europeus, como proibição de importação de frango e outros produtos originários da Bélgica; quarentena da produção de criadores nacionais; estudo da retirada do mercado dos produtos derivados de frango e ovos europeus e análise profunda de lotes de carne suspeitos. Sanitaristas franceses não escondem sua perplexidade pela atitude de seus colegas belgas. A seu ver, eles não ativaram, na hora certa, "o sistema de alerta europeu".
Essa estrutura da União Européia permite uma rápida transmissão das informações em caso de risco sanitário. Ela permitiu, no passado, a destruição na Europa de polpas de cítricos de origem brasileira destinadas a alimentação animal e contaminadas pela dioxina, mas desta vez não funcionou a tempo.

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