Com estas palavras, o ex-ministro da Economia da Argentina, Domingo Cavallo, criticou as medidas anunciadas pelo governo brasileiro. Cavallo insistiu que não estava fazendo previsões catastrofistas: ``o caminho é perigoso, mas não é inexoravelmente trágico. Existe a possibilidade de que a situação se agrave, mas há saídas'.
Segundo o ex-ministro, existem duas alternativas para superar as incertezas que o Brasil vive no momento.
``A primeira das alternativas para o Brasil é adotar uma regra de conversibilidade monetária, onde o dólar seria uma das moedas - ao estilo dos sistema argentino - de forma que possa se assegurar que o câmbio se estabilize no nível de R$ 1,32'.
Cavallo sustentou que assim, o financiamento do setor público do Brasil pode ser feito em reais ou dólares, mas com taxas como as que hoje são pagas pela dívidas em dólares, e não com as altíssimas taxas de juros que se pagam nas transações com os reais.
A outra alternativa imaginada por Cavallo é ``um sistema completo de livre flutuação, que é o que em 1994 foi aplicado pelo México, quando desatou-se a crise do Tequila'.
No entanto, o ex-ministro, e atual deputado e publisher da Forbes International, diz que ``esta alternativa apresentou as dificuldades que vimos no México. Três anos depois, o México ainda tem uma inflação anual de 17%'.
Segundo Cavallo, o Brasil deveria seguir o modelo argentino, criado por ele.
O ex-ministro considera que a ``alternativa argentina' de um sistema de conversibilidade ajudaria que a dívida pública seja solucionada automaticamente. ``O problema da dívida pública brasileira não tem a ver com o nível da dívida, mas com as taxas de juros que estão pagando', sustenta.
Ele afirmou que se o Brasil, sobre seu estoque de dívida pública, tivesse pago as mesmas taxas de juros que a Argentina pagou nos mesmos dias, o custo fiscal da dívida pública no Brasil teria se reduzido em 50%.
Cavallo negou recentes rumores de que estaria sendo consultado pelo governo brasileiro e disse que não possui indícios de que o Brasil tenha preparado um plano de conversibilidade. Cavallo considera que com a liberdade de escolha de moedas que a conversibilidade permite, ``recuperará a confiança dos brasileiros no real'.
Segundo ele, se na Argentina em 1991 o uso do dólar fosse proibido, as pessoas não teriam acreditado na conversibilidade.
Sobre as dívidas dos Estados, Cavallo disse que ``nada deve ser renegociado, não deve ser feito nada de forma compulsiva.
O que deve ser feito é colocar dívida nova, mas em termos de moeda e de taxas de juros que sejam aceitáveis por parte do mercado, mas que seja menos oneroso para o Estado brasileiro'. Cavallo disse que desaconselha qualquer atitude compulsiva em matéria de dívida, ``porque se à estas medidas que tomou o Brasil acrescentasse uma medida compulsiva, estaríamos no ``cenário russo', ou seja, estaria instalada a desconfiança total e definitiva. E depois, é muito difícil reestabelecer a confiança'.
Cavallo insistiu na confiança, ao colocar dúvidas sobre a ampliação da banda cambial: ``ao mudar as bandas demonstrou que está disposto a mudar. Ou seja, não estão tão amarrados a seu anúncio, como haviam feito antes. E se está tão disposto a mudar, os operadores vão começar a especular sobre a próxima mudança. Isso não é exclusivo do Brasil.
Foi o que aconteceu no México em dezembro de 1994, na Tailândia, na Coréia e na Rússia'.
Apesar de suas análises, Cavallo declarou que ``não vão escutar de mim previsões de mau agouro. Não quero fazer profecias que depois se auto-cumpram. Dizer que alguma coisa vai ir mal pode fazer que as coisas comecem a ir mal. O que temos de fazer é trazer idéias para que a situação não fique mais grave'.

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