São Paulo, 06 (AE) - O ex-ministro da Economia da Argentina, Domingo Cavallo, disse hoje, em São Paulo, que o povo argentino não aceita o fim do regime de conversibilidade ou a desvalorização do peso como saídas para a atual crise do país. Segundo ele, quem pensa que não há outra alternativa que não seja a redução dos salários dos argentinos, através da desvalorização da moeda, está errado. "Os argentinos não vão deixar nenhum governo aumentar a competitividade nos empobrecendo", afirmou, acrescentando que apenas os setores exportadores ou que competem com produtos importados aplaudiriam uma medida como essa.
"Nenhum governo vai mudar o regime de conversibilidade ou permitir a desvalorização do peso. Não se equivoquem porque nenhuma democracia toma decisões contra o que seu povo quer", disse o ex-ministro falando nessa manhã em um seminário promovido pelo Banco Pactual. Segundo ele, o problema da Argentina restringe-se à perda de competitividade que começou a ocorrer após sua saída do governo há três anos. Falando como candidato à sucessão do presidente Carlos Menem, Cavallo detalhou um plano para que o País retome o ritmo de produtividade que tinha no início dos anos 90, centrado em quatro propostas: eliminação de impostos que incidem sobre a produção; reforma na legislação trabalhista; retomada da desregulamentação da economia e mudanças no sistema financeiro.
A partir da implantação desse plano num prazo de até 60 dias após a posse do novo presidente, Cavallo acredita que a Argentina teria um aumento de 20% de sua competitivdade. E, consequentemente, voltaria a crescer. No ano 2000 o ex-ministro aposta no crescimento do PIB de 10%, que seria seguido nos próximos anos de crescimentos anuais de 6%. Seriam gerados 2,4 milhões de novos empregos e a taxa de desemprego em 2003 cair ia para 6%. Para quem não acredita no sucesso dessa proposta, o ex-ministro lembrou que a economia argentina cresceu continuadamente de 1991 a 1998 com um único ano de exceção, em 1995, quando a economia sofreu uma queda de seu PIB de 3%. Mercosul - O ex-ministro Domingo Cavallo alertou o Brasil para não tentar reduzir os salários dos trabalhadores da Argentina como forma de manter unido o bloco do Mercosul. Segundo ele, o governo brasileiro perderá se tentar "empobrecer" os argentinos, tentando uma redução de salário que oscilam entre US$ 600 e US$ 700 para algo como US$ 300. Ele não explicou se estava se referindo a salários médios pagos nesses países. "O Mercosul está se transformando em uma causa impopular. Na Argentina é cada vez mais impopular", ponderou Cavallo, dizendo
no entanto, que à medida que os governos não tentem penalizar seus trabalhadores, eles terão apoio para manter o bloco econômico em funcionamento.
"Precisamos trabalhar para que nossa gente viva melhor. Assim, nossa população vai apoiar nossos governos", disse. Estando o crescimento de 11% e 10%, respectivamente, em 1991 e 1992, da economia Argentina, quando o Brasil vivia uma recessão, o ex-ministro disse que a Argentina teve um bom desempenho mesmo quando o Brasil claudicava. "Sem dúvida, a economia brasileira não ajudou muito", disse. Novamente, em 1995, quando a Argentina enfrentou o efeito tequila (crise mexicana), Cavallo afirmou que o Brasil não foi de muita ajuda, à medida que, com a estabilização da economia em decorrência da criação do real, a demanda interna brasileira foi aquecida e os argentinos não se beneficiaram da mudança.
Apostando na retomada da produtividade da Argentina como solução para a atual crise, o ex-ministro sugeriu que o Brasil faça o mesmo, citando, inclusive, os principais pontos de seu plano de governo como exemplos a serem seguidos. "O Brasil não é um país para se resignar ao crescimento de 2% a 3% ao ano, muito menos a uma taxa de 0%. Tem de crescer mais que a Argentina e pode crescer, desde que busque produtividade", disse, ponderando, por fim, que isso precisa ser feito sem que o governo empobreça os brasileiros.

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