Waimea, Havaí (AE-AP) - Esta cidade na montanha, frequentemente varrida pelo vento e onde as casas têm fogões a lenha e aquecedores elétricos, está a apenas 15 minutos de carro das praias com palmeiras que os turistas associam ao Havaí.
Uma rápida subida pela costa noroeste da ilha do Havaí leva o visitante a um mundo de montanhas encobertas por uma névoa esmeralda e vastas planícies pontilhadas por gado.
Waimea é o coração da região paniolo do Havaí, a parte caubói do país, com seus rodeios e trilhas solitárias. A atmosfera "western" não é uma estratégia de marketing turístico, mas uma consequência da rica tradição das fazendas, que data dos primórdios da monarquia havaiana. Os nativos dizem que os paniolos antecederam os caubóis do oeste americano em mais de duas décadas. Mas a cultura caubói está agonizando. A fraca economia da ilha e dois anos de secas levou muitos dos trabalhadores desta área para outras atividades ou para o desemprego.
"É preocupante quando você começa a esperar por uma tempestade, mas neste momento, nós gostaríamos de qualquer coisa", diz Robert Hind, gerente da área de animais domésticos do Parker Ranch, o maior do estado. O rancho mandou seus bezerros para lotes no continente de navio, diminuiu a criação e cortou sua equipe de caubóis enquanto luta para não pagar um conta em impostos que chega a milhões de dólares.
As mudanças levaram os residentes de Waimea e os líderes do estado a redobrar os esforços para preservar a tradição paniolo.
"Muito do que se vê aqui é muito diferente do que você encontra em qualquer lugar: as celas, os chapéus e a maneira como eles cavalgam", disse Patti Cook, dono de uma loja e membro da Sociedade de Preservação Paniolo. "Trata-se de algo muito precioso".
A tradição nasceu em 1790, quando o capitão inglês George Vancouver entregou cinco cabeças de gado provenientes da Califórnia como um presente para Kamehameha I, o primeiro monarca havaiano. Na medida em que mais gado chegava, o rei estabeleceu um kapu, ou seja, um tabu, a respeito dos animais, tornando a morte de qualquer um deles uma ofensa capital. Dentro de alguns anos, milhares de bois e vacas corriam livres pelas encostas do vulcões Mauna Kea e Mauna Loa.
Em 1832, Kamehameha III recrutou vaqueiros mexicanos da Califórnia para ensinar os havaianos a cavalgar e amarrar o gado. Enquanto "vaquero" resultou em "buckaroo" no oeste, no Havaí os caubóis mexicanos eram chamados de paniolo, o nome local para espanhol.
A madeira do sândalo havia sido o principal produto para permuta com navios de comércio. Mas as florestas esgotaram-se, o gado multiplicou-se e a carne tornou-se um atrativo econômico.
Em 1847, John Palmer Parker, um ex-marinheiro de Massachusetss que casou-se com uma havaiana da realeza, abriu seu rancho com dois acres (um hectare), vendido a ele por Kamehameha III por pela simbólica quantia de US$ 10. Hoje, o Parker Ranch é composto por 225 mil acres (91 mil hectares) e abriga cerca de 50 mil cabeças de gado. O local vem sendo administrado por um conselho e beneficia escolas locais e postos médicos desde 1992, quando morreu Richard Smart, descendente direto de Parker. A morte de Smart deixou o rancho com dívidas em impostos governamentais de US$ 18 milhões.
Waimea, uma cidade de cerca de 7 mil habitantes, na base do monte Mauna Kea (4.200 metros de altura), cresceu com o rancho. Centenas de pequenas operações pecuárias espalharam-se pelas ilhas, fazendo da carne uma indústria de US$ 14,3 milhões no Havaí em 1997. Mas Parker Ranch vem produzindo a maior parte dos famosos caubóis havaianos. Com a uma flor presa no seu chapéu de vaqueiro, Jiro Yamaguchi, de 74 anos, continua a participar de competições com seu palomino favorito, Pilimau.
Yamaguchi recorda-se dos longos dias de trabalho e de "muita ação" nos 52 anos de cavalgadas nos declives de Mauna Kea, muitas vezes cobertos de neve, que ele percorreu antes de se aposentar em 1990. "Quando eu saía de casa estava escuro e quando eu voltava também", diz ele. "Nós costumávamos cavalgar de casa até o local de trabalho. Não era como hoje em dia, quando temos caminhões e trailers para puxar os cavalos". O trabalho era ainda mais difícil no tempo do seu pai, quando caubóis tinham que colocar o gado dentro dágua, muitas vezes dividindo o local com tubarões. Isso foi antes do pier ser construído em Kawaihae, próximo a Waimea.
O pai de Yamaguchi, Matsuichi, morreu nos anos 30 quando seu cavalo caiu durante uma movimentação de ovelhas. Mas Jiro Yamaguchi, que tinha 9 anos na época, disse que nunca hesitou em tornar-se um caubói ou em permitir que seu filho, Mark, tivesse se tornado um. Mark Yamaguchi é agora um capataz do Parker Ranch.
A força de trabalho paniolo incluiu homens japoneses, chineses, portugueses, filipinos e caucasianos e algumas mulheres. Mas a língua oficial continua a ser o havaiano. "Muito tempo depois de outras partes da comunidade terem deixado de falar havaiano, os paniolos a mantém viva", diz Patti Cook. "Para mim, isso é uma contribuição muito importante para a cultura havaiana". A música havaiana também foi, segundo ela, muito influenciada pelas músicas e histórias dos caubóis.
Mesmo que a tradição rancheira enfrente um futuro incerto, o orgulho paniolo está ressurgindo. O número de membros da Associação Escola Superior de Rodeio do Havaí quadruplicou para 100 nos últimos 12 anos e 150 estudantes pertencem à associação infantil de rodeios. O governador Bem Cayetano proclamou este como sendo o Ano do Paniolo e a cultura caubói havaiana foi celebrada num recente documentário e com um CD com músicas típicas. Ele também juntou-se a uma bem-sucedida campanha para colocar o legendário paniolo Ikua Purdy no Hall da Fama Nacional dos Caubóis de Rodeio.
Purdy impressionou os americanos do oeste ao ganhar o campeonato mundial de 1908, em Cheyenne, Wyoming, amarrando um touro jovem no tempo recorde de 56 segundos. Ele foi imortalizados em danças hula e músicas havaianas, incluindo Hawaiian Rough Riders e Waiomina.
Sua indicação dá aos caubóis havaianos um reconhecimento tardio, diz Lynda Haller, do Hall da Fama Nacional do Caubóis e do Centro da Herança do Oeste na cidade de Oklahoma. O centro incluiu o Parker Ranch numa mostra, surpreendendo a maioria dos visitantes. "Eu não acho que as pessoas sequer imaginam o Havaí como um lugar onde existam caubóis, porque todos se lembram dos abacaxis, além de considerarem o lugar maravilhoso para passar as férias, diz Haller. "Eu não creio que passem por suas cabeças que há ranchos por lá".
Como seus irmãos do oeste americano, os caubóis havaianos aprenderam seu ofício com os vaqueiros mexicanos. Mas a terra e a língua fez dos paniolos havaianos um tipo diferente de caubóis.
Montanhas escarpadas e campos cobertos por lava endurecida criaram um terreno muito mais desafiador do que o encontrado no continente. E o ambiente tropical nunca foi uma garantia contra o frio. Os paniolos realizavam a maior parte do seu trabalho nas geladas altitudes do vulcão Mauna Kea, que fica a 4.200 mil metros de altura.
As primeiras selas paniolo não tinham tachas ou pregos, eram costuradas á mão e planas. Um tipo de madeira, conhecida por neleau, era usada para a estrutura, reforço e para o chifre da sela.
Como no continente, os chapéus flexíveis inspirados pelos vaqueiros, deram lugar aos Stetsons, mas os paniolos adornam os seus com flores e penas. Esta tradição continua nas competições de rodeio e nos desfiles.
Independentemente da etnia, os paniolos recebem ordens em havaiano. Eles desenvolveram um vocabulário único que continua em uso hoje em dia. Por exemplo, "waha significa fazer barulho para manter o gado em movimento. Outros exemplos: Pipi: gado Lio: cavalo Ili o: cachorro Kaula ili: laço Paeke (pa-EH-kay): curral Hemo ka puka: abra o portão Wawahi: separe o gado Nee imua: vá para frente Kani ka o: fique em fila Paa ka ma ka mua: venha para dentro.

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