Católicos europeus perplexos com apoio do Vaticano a Pinochet Do correspondente REALI JÚNIOR
Paris, 23 (AE) - Até a véspera da decisão histórica da mais alta jurisdição britânica, a Câmara dos Lordes, os católicos europeus estavam perplexos com o polêmico apoio do Vaticano ao ex-ditador chileno Augusto Pinochet.
A intervenção ocorreu no fim de semana, quando o porta-voz da Santa Sé, monsenhor Joaquim Navarro Valls, anunciou que uma "iniciativa diplomática" havia sido feita junto ao governo britânico e por razões humanitárias. Navarro Valls não se referiu em nenhum momento aos inúmeros padres, religiosas e católicos que pagaram um alto preço durante o período da ditadura chilena.
O Vaticano justificou sua intervenção lembrando que agiu em atenção a um pedido do próprio governo chileno que reivindica sua soberania territorial. No começo do mês, o Vaticano publicou um documento, intitulado Para a Verdade e a Paz, no qual afirma não pretender interferir nas decisões de Londres, mas colocar um ponto final "ao grave prejuízo" causado ao país pela detenção de Pinochet.
Em Londres, afirma-se que essa pressão diplomática não partiu do papa João Paulo II, mas de personalidades influentes da cúpula do Vaticano. Na verdade, dois nomes da cúria romana conhecem bem o caso Pinochet.
O primeiro é o próprio titular da Secretaria de Estado, cardeal Angelo Sodano, um dos mais próximos colaboradores do papa, que foi núncio apostólico em Santiago nos tempos de Pinochet. Ele foi o organizador da viagem do papa ao Chile em 1987. Na ocasião, João Paulo II apareceu no balcão do Palácio de la Moneda ao lado do então ditador, cena que escandalizou o mundo todo. As relações entre João Paulo II e Pinochet causaram nova indignação quando tanto o cardeal Sodano como o próprio papa cumprimentaram o general e a esposa dele por suas bodas de ouro.
O segundo é o cardeal Jorge Medina Estevez. Protegido do cardeal Sodano, esse bispo chileno foi nomeado, em 1996, para chefe da Congregação do Culto Divino - um dos postos mais importantes da cúria romana. Dois anos depois, ainda com a influência de Sodano ele se tornou cardeal. O cardeal Estevez foi uma das personalidades da Igreja que primeiro se manifestou a favor de Pinochet. Logo após a detenção do ex-ditador em Londres, o cardeal afirmou: "Trata-se de uma humilhação para a soberania nacional do Chile."
Ele fez questão de acrescentar que rezava diariamente por Pinochet, irritando ainda mais as organizações de defesa dos direitos humanos e as famílias das vítimas da ditadura chilena.
Esse mesmo cardeal tem dado entrevistas afirmando que da parte do Vaticano "tudo que poderia ser feito pelo general Pinochet já havia sido feito". Ele também explicou que as iniciativas foram discretas, mesmo porque falar muito nesse tipo de acontecimento pode provocar maiores dificuldades.
Atualmente, entre os analistas políticos do Vaticano, poucos têm dúvidas de que foram esses dois cardeais os responsáveis pela mobilização da Santa Sé em favor de Pinochet, mesmo que a linha que prevalece junto à Igreja chilena, em nome da "reconciliação nacional", defenda a libertação do antigo ditador.





