Católicos e luteranos assinam acordo histórico
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 29 de outubro de 1999
Por ASSIMINA VLAHOU, Especial para a Agência Estado 
Roma, 30 (AE) Quase 500 anos depois que o monge agostiniano Martinho Lutero expôs publicamente suas 95 teses religiosas, nas quais condenava o comércio de indulgências pela Igreja Católica Romana e dava início à Reforma, que cindiu o mundo cristão ocidental, católicos e luteranos retomam o diálogo
exatamente onde o haviam deixado.
Prometendo deixar de lado as acusações recíprocras, a Igreja Católica e a Federação Luterana Mundial assinam amanhã (31) o primeiro documento comum após séculos de afastamento. A cerimônia será na cidade de Augsburg, na Alemanha. Foi lá que Lutero afixou suas teses, à porta da igreja pertencente ao Castelo de Wittenberg.
O documento, denominado Declaração Conjunta Sobre a Doutrina da Justificação, trata do tema central da polêmica teológica a questão da salvação. Lutero, que não desejou a cisão, defendia que o homem é salvo por graça e fé somente e não por obras meritórias.
Ele atacava especialmente o comércio de indulgências pelo papa Leão X, que procurava fundos para projetos suntuosos, entre os quais a construção da Basílica de São Pedro, em Roma. Segundo Lutero, Deus concede gratuitamente a salvação, que é recebida na fé.
Essa doutrina foi condenada pela Igreja Católica, no Concílio de Trento, que durou de 1545 a 1563. Os teólogos católicos entenderam que ao rejeitar "as boas obras", a Reforma estaria negando o compromisso ético dos cristãos.
No documento atual, afirma-se que a salvação vem de Deus
da fé que se tem nele, independentemente das obras. Por sua vez
as obras contribuem para o crescimento da fé, na graça de Deus.
O degelo nas relações entre católicos e protestantes começou com o Concílio Vaticano 2.º, no início dos anos 60. Mais tarde, em 1967, o papa Paulo VI propôs a Comissão Mista Internacional Católica-Luterana, que produziu o documento atual.
Os luteranos serão representados na cerimônia de amanhã por oito pessoas, entre as quais um brasileiro o pastor Huberto Kirchheim, vice-presidente da Federação Luterana para a América Latina e o Caribe. A comissão do Vaticano terá à sua frente o presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade Cristã, o cardeal Edward Cassidy.
O documento será assinado na data em que anualmente se comemora a Festa da Reforma. "Isso significa que não nos declaramos mais heréticos nem inimigos", disse à AE o pastor Michael Uhl, representante da comunidade luterana na Itália.
Ele considera o evento um fato histórico: "A Igreja Católica assina um documento com as mesmas formulações registradas no tempo da Reforma, reconhecendo dessa forma que havia um pouco de verdade no pensamento de Lutero."
A federação reúne 128 igrejas, distribuídas por 70 países. O documento foi aprovado pela grande maioria deles. Isso não significa, no entanto, o fim das polêmicas. De acordo com um documento endossado por 139 teólogos protestantes da Alemanha, dos quais a maioria é luterana, a Igreja Católica ainda não provou sua intenção de aprofundar o diálogo, recusando-se a discutir questões fundamentais como a eucaristia comum e a hierarquia do clero.
O documento dos teólogos surgiu como uma espécie de resposta ao novo manual sobre indulgências, divulgado em setembro pela Santa Sé.
Com sugestões sobre como purificar a alma e reduzir a permanência no purgatório, o manual foi visto como exemplo de que Roma ainda resiste a mudanças.
Apesar das divergências, o documento de Augsburg é visto como promissor o primeiro obtido por meio de uma longa discussão entre católicos e seguidores de Lutero. Para o pastor Uhl, ele tem valor real: "Não haverá mais problema na realização de um batismo luterano ou um matrimônio misto, porque as duas igrejas reconhecem princípios teológicos comuns."
O alcance do diálogo é limitado. Ele envolve apenas igrejas protestantes históricas, especialmente a luterana. Esses grupos e os católicos estão cada vez mais próximos, especialmente em projetos na área social.
Por outro lado, igrejas evangélicas criadas há pouco tempo, como a brasileira Universal do Reino de Deus, mostram-se refratárias a qualquer tipo de diálogo. Não se aproximam sequer de grupos protestantes tradicionais que frequentemente condenam suas práticas, especialmente as que se referem à arrecadação de dinheiro. (Colaborou Roldão Arruda) A íntegra do documento pode ser encontrada no site da Arquidiocese de São Paulo (www.arquidiocese-sp.org.br)


