Catador vende arte encontrada no lixo de casas da zona sul de SP
São Paulo, 03 (AE) - Há 26 anos, o catador Nelson Paladino vive da venda dos restos da decoração das casas dos Jardins, na zona sul de São Paulo. Quadros, objetos de arte e móveis antigos são as preferências desse cidadão analfabeto que tem na história uma de suas paixões. Com uma carrocinha azul, percorre das 7 às 17 horas, todo dia, as ruas da região nobre. Os porteiros dos prédios já o conhecem. De estátuas a grades, ele recoloca o lixo estético no circuito comercial.
"A madame joga o lustre fora e eu compro do zelador ou faxineiro", exemplifica Paladino. Ele trabalha desde os 12 anos como catador e revendedor. "No começo suava de vergonha", conta. Sustenta a mulher e três filhos com o produto de seu garimpo. Em sua casa, no Jardim Lofredo, na periferia de Osasco, há lustres e quadros que já estiveram em imóveis dezenas de vezes mais valorizados. "Antiguidade em casa de pobre não pega, é coisa para rico".
São várias as histórias que ilustram um pouco do universo dos jardins Paulista, América e Europa: a mulher com o BMW que passou cheque de R$ 180,00 sem fundo (e foi descoberta seis meses depois como dona de antiquário); a estátua que ele diz ter vendido por R$ 800,00 e foi exibida em programa de televisão como objeto de valor incalculável; a caixinha de R$ 500,00 dada por um dono de loja, por causa do lucro a partir de um quadro vendido por R$ 200,00.
Apesar de ser analfabeto, Paladino tem boa memória e paixão pela história. Da Bíblia, do seu Corinthians e até de Hitler. A única vez que votou foi em Luiz Inácio Lula da Silva, em 1986, para deputado federal. Quando em casa, é recluso, refratário a telefones, carros e parentes. E veste-se melhor: ainda tem uma série de ternos doados pelo estilista Clodovil. De dia, perambula de chinelos, com os pés no circuito de antiguidades da cidade. Já foi furtado, nunca assaltado. Em sua carrocinha, não raro jogam latas velhas. Pensam que recicla lixo comum. (Alceu Luís Castilho)





