Catador de papel fica sem comida dois dias no mês
Tão instável quanto a renda do catador de papel de Londrina Sorlei Bento, 39 anos, é a sua alimentação e a da família. Ele está entre os brasileiros que na maior parte dos dias têm comida na mesa, mas que volta e meia - pelo menos duas vezes por mês - se deparam com geladeira e despensa vazias.
''Quando isso acontece, eu passo o dia inteiro sem comer mesmo. Nesse meu trabalho, tem dia que dá uma renda boa, tem dia que não dá nada. E pedir, eu não peço'', afirma Bento, casado e pai de três filhos com idades entre 8 e 10 anos. Ele ressalta que as crianças não passam fome porque têm merenda na escola e porque ele tira comida ''da própria boca'' para dar a elas.
No dia-a-dia, o almoço da família é arroz com feijão. Quando perguntamos sobre a ''mistura'', Bento dá uma risadinha. ''É raro. Frango, só quando sobra um dinheirinho.'' O filho mais velho diz que sente falta de batata e carne.
A secretária municipal de Assistência Social, Maria Luiza Rizotti, acredita que a cobertura dos programas federais de transferência de renda não permite mais que as pessoas passem fome em Londrina. Esses programas têm 26 mil famílias cadastradas na cidade. Sobre a situação do catador de papel entrevistado pela Folha, a secretária diz ser parte de um problema maior.
''Os programas não superam a pobreza e a miséria de uma forma geral porque isso é uma questão de modelo de desenvolvimento econômico. Esse catador de papel não precisa só de segurança alimentar, ele precisa de segurança de trabalho'', assinala.





