Casos entre indígenas preocupa o governo
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sábado, 28 de março de 1998
Roldão Arruda Agência Estado 
As autoridades sanitárias estão preocupadas com a epidemia de Aids entre populações indígenas. O Ministério da Saúde tem realizado reuniões periódicas para avaliar o problema. Na última delas, que terminou anteontem, em Porto Seguro, na Bahia, foram estudados programas de prevenção que se adaptem às diferentes culturas indígenas. Uma cartilha sobre cuidados com doenças sexualmente transmissíveis começou a ser preparada por técnicos do governo e do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Ela deverá ter uma versão na língua guarani.
De acordo com números divulgados pela coordenação do Programa Nacional de Aids, já foram registrados 25 casos da doença entre índios. Não é uma taxa de incidência alta, em comparação com outros grupos populacionais e diante do contigente indígena, estimado em 326 mil pessoas. O que mais preocupa os especialistas é a vulnerabilidade das comunidades.
Alguns grupos estão expostos a intensos contatos com os brancos, por causa da proximidade de suas reservas com regiões de garimpo e de grandes obras de construção, disse a médica Cristina Pimenta, chefe da unidade de prevenção do programa governamental. Historicamente, nessas ocasiões ocorre o aumento da prostituição e da incidência de doenças sexualmente transmissíveis entre os povos indígenas.
Outro fator preocupante é a mobilidade. A médica Cristina lembrou o caso de um grupo do Maranhão, cujos integrantes costumam locomover-se entre a aldeia de origem e uma favela na periferia de São Paulo. Ao sair em busca de trabalho, tornam-se mais vulneráveis à infecção pelo vírus HIV.
Na abordagem do problema da Aids entre os índios, as autoridades enfrentam o problema das diferenças culturais. Embora a maioria dos grupos já tenha sido privada de suas tradições, alguns ainda mantêm a língua, a religião e a estrutura social herdada dos ancestrais. As cartilhas e qualquer outra inciativa devem levar em conta esses fatores, disse Cristina.
As iniciativas do governo deveriam ter sido tomadas há mais tempo, segundo representates do Cimi - organização não-governamental na área índigena, vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Diante do abandono dos programas de saúde no meio indígena, a Aids pode transformar-se em mais um fator de dizimação, disse o secretário-adjunto da instituição, Roberto Antonio Liebgott. No momento, os índios já enfrentam problemas sérios com o aumento da incidência de casos de tuberculose e de malária.


