Caso Pinochet é um aviso aos ditadores do mundo Do correspondente REALI JÚNIOR
Paris, 24 (AE) - Logo após o anúncio da decisão histórica da Câmara dos Lordes, o secretário-geral da Assembléia Permanente dos Direitos do Homem na Bolívia, Sergio Llorenty, revelou ter entregue ao juiz espanhol Baltasar Garzón novos documentos implicando o atual presidente boliviano, Hugo Bánzer, em crimes de tortura, sequestro e morte, quando de sua primeira passagem pela presidência.
Na época, vigorava a conhecida Operação Condor, da qual participavam também o general Augusto Pinochet do Chile e o general Jorge Videla da Argentina. Os três ditadores mantiveram ampla cooperação na repressão aos militantes de esquerda na América Latina, principalmente no período entre 1971 e 1978. Esse é mais um passo em direção à globalização da Justiça.
Da mesma forma que está ocorrendo com a oposição chilena no exílio, também as famílias das vítimas bolivianas, assim como as argentinas, não estão dispostas a passar uma borracha nos anos de repressão nesses países, mesmo se hoje, convertido em democrata, o presidente Bánzer negue de pés juntos qualquer participação na Operação Condor, afirmando jamais ter ouvido falar disso no passado.
Na Franca, antigos exilados argentinos sabem que contam com o apoio do governo francês, que até hoje não engoliu o desaparecimento de duas religiosas francesas em Buenos Aires, e outros crimes de assassinato e tortura cometidos contra franceses nos anos da ditadura portenha. As duas religiosas teriam sido sequestradas pelo capitão Alfredo Astiz, um dos mais conhecidos torturadores do regime Videla,
Hoje, Bánzer procura justificar-se, refugiando-se no contexto anterior da guerra fria entre os Estados Unidos e a URSS, como se isso pudesse isentá-lo de toda a responsabilidade nas atrocidades cometidas no país sob sua liderança - uma presidência que nasceu de um golpe militar.
O balanço da Operação Condor na Bolívia é importante, dezenas de militantes da oposição chilena e argentina que se encontravam no exílio em La Paz acabaram presos pelos militares bolivianos e devolvidos aos dois países vizinhos. Quem não se lembra também do assassinato, em Buenos Aires, do ex-presidente boliviano Juan José Torres, após o golpe de Estado de Bánzer. Agora, sabe-se que foi a liderança dessas duas ditaduras decidiu esse assassinato.
O novo contexto que permitiu a volta de Bánzer à presidência, no entanto, joga a seu favor. Ele foi eleito democraticamente pelas urnas e mesmo entre os antigos dirigentes da oposição boliviana há pessoas que pretendem apagar o passado, evitando fazer comparar Bánzer a Pinochet. Outro nome citado é o do general Alfredo Stroessner, que serenamente aguarda a chegada da morte em Brasília.
Os dirigentes da oposição boliviana no exílio, estabelecidos na Europa, estimam em 200 o número de mortos sob a ditadura Bánzer, além de 150 desaparecidos e pelo menos 2 mil exilados - boa parte partiu para o Brasil na época. Depois da decisão da Câmara dos Lordes, que não chegou a satisfazer amplamente os opositores de Pinochet, antigos chefes de regimes autoritários latino-americanos estão sendo aconselhados a não viajar para capitais como Paris, Londres, Bonn, Roma e Madri para evitar surpresas desagradáveis.





