São Paulo, 06 (AE) - Psiquiatras temem que o caso do estudante Mateus da Costa Meira possa contribuir para o crescimento da discriminação de pacientes psiquiátricos. "Não se deve generalizar e correr o risco de trazer mais sofrimento a quem tem problemas mentais", disse o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Miguel Jorge. Segundo Jorge, 20% da população pode apresentar algum tipo de patologia psiquiátrica, das mais leves até as gravíssimas. Esse índice sobe para 30%, se o foco for o sofrimento psíquico de qualquer tipo, sem que seja uma doença mental. "Apenas 3% do total vai apresentar quadros mais graves de manifestações psicóticas, como alucinações", afirmou.
"Quem cheira cocaína, num quadro agudo, pode entrar em paranóia e também se encaixar nesses 3%", explicou. Jorge ressaltou que, mesmo nos casos extremos, só uma parte muito pequena pode oferecer riscos à sociedade ou a si próprio. Ontem, alguns parentes de pessoas com transtornos mentais até procuraram médicos, preocupados que o caso de Meira pudesse repetir-se em suas famílias. "Expliquei às mães que o risco existe, mas ocorre em uma parcela muito pequena e é preciso não confundir com uma ameaça real", disse o psiquiatra e psicoterapeuta Eduardo Ferreira-Santos, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, que tem dois pacientes com alucinações auditivas. "O que mais angustia é a imprevisibilidade humana".
Ele lembrou que as auto-agressões são mais frequentes do que a violência contra o outro. "Num caso extremo, o único que presenciei em 22 anos de profissão, um paciente do Hospital das Clínicas que sofria de alucinações visuais chegou a arrancar os olhos para livrar-se da perturbação", afirmou. "Depois suicidou-se". O diretor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, Wagner Gattaz, disse que a maioria dos doentes mentais não é agressiva e tendências homicidas ou suicidas (essas são as mais fortes) podem ser detectadas durante o tratamento. "Mas não sempre".
Há alguns problemas que emperram a descoberta, como o fato de alguns pacientes não contarem tudo o que sentem ou a influência de um fator repentino. "Quem tem alucinações auditivas, ouve vozes dando ordens de repente, que a pessoa executa; a tragédia é imprevisível". Ele lembrou que álcool e drogas podem ser fatores desencadeantes de um ato de violência, não necessariamente ligados a doenças mentais.
"Um estudo feito na Dinamarca mostrou que 1,5% da população total já havia cometido algum ato de violência, desde a agressão até o homicídio", explicou. Entre a população de doentes mentais internados, esse índice subiu para 6,7%. "Mas a situação agravava-se com os dependentes de álcool e drogas internados, com níveis de 10% e 13%, respectivamente". Segundo o professor-titular do Departamento de Psiquiatria da Unifesp-EPM Jair Mari, estudos apontam que, em países onde é grande a violência é de apenas 3% a participação das pessoas com transtornos mentais nos índices de violência global. //FIM/RGR/REDAEGER/

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