Caso Elián joga comunidade cubana de Miami contra o resto dos EUA Da correspondente Mônica Yanakiew
Washington, 14 (AE) - Diariamente o Newseum - um museu nos arredores de Washington, dedicado exclusivamente ao jornalismo - exibe as primeiras páginas de 70 jornais do mundo inteiro. Nos últimos meses, a maioria deles publicou a mesma foto: o rosto do menino cubano Elián, cuja custódia está sendo disputada há mais de cem dias pelo pai, Juan Miguel González, e o tio-avô, Lázaro González.
Elian também está presente na sede do Fundo Monetário Internacional (FMI). Desde o início da semana, o prédio foi cercado pela polícia para proteger os ministros dos 182 países membros de 10 mil manifestantes, que prometem impedir a sua participação numa reunião nos próximos dias 16 e 17.
Os manifestantes - uma coalizão de 400 sindicatos, organizações não governamentais e grupos estudantis e religiosos - protestam contra o FMI, cujas políticas de ajuste fiscal prejudicam os povos dos países pobres, e contra os males da globalização. Mas alguns deles também fizeram de Elián a sua bandeira: em solidariedade ao governo cubano de Fidel Castro, que pediu o perdão da dívida dos países do Terceiro Mundo, exigiram a repatriação de Elián.
No sótão da sede do FMI, onde funciona o centro de imprensa, os protestos contra a globalização passam quase desapercebidos pelos jornalistas, ocupados em decifrar relatórios sobre a economia mundial.
Mas lá também Elián esteve presente: as televisões estão transmitindo, ao vivo, cada minuto do drama do menino, cujo pai viajou até os Estados Unidos para levá-lo de volta a Cuba e cujo tio-avô insiste em mantê-lo em Miami, desafiando as autoridades americanas.
A presença de Juan Miguel em Washington é mais um motivo de preocupação para a polícia local: o desenlace da novela Elián, que diariamente é anunciado para as próximas horas, levou a uma mobilização redobrada.
Enquanto centenas de agentes cercam o FMI e pontos estratégicos no centro da cidade, outro grupo protege o pai do menino, hospedado em Bethesda - um subúrbio de classe média alta de Washington.
Além de mobilizar a opinião pública mundial e americana, cuja maioria quer que o menino seja devolvido ao pai, Elián está acirrando os ânimos no estado da Flórida - onde a poderosa comunidade de 800 mil exilados cubanos e seus descendentes dita os rumos da política local e também exerce sua influência sobre a política internacional de Washington.
Uma recente pesquisa do jornal Miami Herald e da cadeia de televisão NBC acaba de mostrar que o caso Elián aumentou o ressentimento, na Flórida, contra a comunidade cubana - algo que poderá ter consequências no futuro.
Em todos os EUA, 60% das pessoas acham que o menino deve voltar para Cuba, porque seu lugar é com o pai. Os exilados cubanos ignoram a opinião da maioria, alegando que poucos americanos têm conhecimento das atrocidades cometidas por Fidel e suas intenções de submeter Elián a uma lavagem cerebral.
Mas no sul da Flórida, onde a população acompanha de perto os acontecimentos em Cuba e convive diariamente com as vítimas da repressão de Fidel, o número de pessoas favorável à repatriação de Elián é muito maior. A pesquisa mostra que 76% dos brancos, que não pertencem à comunidade hispânica, e 92% dos negros, que sentiram na pele a opressão, querem que o menino seja devolvido ao pai.
Os cubanos reagiram às pesquisas dizendo que os resultados apenas refletem o racismo que existe nos EUA e na Flórida. Mas o colunista negro Robert Steinback, do Miami Herald, diz que os números são um sinal de alerta: se existe uma crescente atitude racista em relação aos exilados de Cuba, existe uma razão.
A explicação é que a comunidade está exercendo toda a sua força política e econômica para paralisar Miami e mobilizar os políticos e o governo dos EUA em torno da sua causa, ignorando a vontade da maioria e as leis do país - dois dos princípios fundamentais da democracia, que querem instalar em Cuba. E estão pedindo a solidariedade de pessoas, cujas opiniões não pediram, nem querem ouvir.





