Casas incendiadas e violência toma conta de Kosovo
PRISTINA, Iugoslávia, 25 (AE-AP) - Com 14 assassinatos, dezenas de saques e incêndios de lojas e casas de sérvios e ciganos, Kosovo viveu hoje (25) um dos piores dias de violência desde sua ocupação na semana passada por soldados britânicos das forças internacionais de paz (Kfor), comandadas pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Esses crimes ocorreram no momento em que o secretário-geral da Otan, Javier Solana, e o comandante militar da aliança, general Wesley Clark, visitavam a cidade.
A menos de cem metros de onde eles debatiam a situação do território com líderes das comunidades de origem albanesa e sérvia, albaneses etnicos pilhavam uma loja de sérvios, enchendo um caminhão de móveis e eletrodomésticos. O roubo foi testemunhado por uma patrulha britânica, que permaneceu estática a 150 metros de distância.
No mesmo local, um grupo de crianças arrebentou a porta de uma banca de jornal e apoderou-se de revistas pornográficas e pequenos jogos eletrônicos. As revistas foram distribuídas entre várias pessoas que as agitaram quando Solana e Clark deixaram o encontro. Aclamaram Hashim Thaci, líder político do Exército de Libertação de Kosovo (ELK), e vaiaram a delegação sérvia, chefiada pelo arcebispo de Prizren, Artemio.
Segundo Thaci, os atos de pilhagem e outros tipos de violência são praticados por quadrilhas de albaneses, que entraram na província com os refugiados. "Não são albaneses kosovares, posso assegurar", disse ele. Pouco tempo depois, albaneses étnicos ocupavam a sede do Partido Socialista Sérvio, do presidente Slobodan Milosevic, no centro da capital kosovar.
Em Washington, o presidente Bill Clinton afirmou que estava "preocupado" com a violência contra sérvios em Kosovo, mas não "surpreendido... depois de tudo que (os albaneses) sofreram".
Clinton garantiu que "estamos fazendo todo o possível para bloquear essas violências. A Otan está tratando de impedir que se repitam".
O clima de violência e revanchismo está-se agravando com o retorno em massa dos refugiados que se encontram abrigados na Albânia e Macedônia. Segundo a Otan, 300 mil já retornaram, apesar das advertências sobre os sérios riscos que enfrentam - principalmente em relação aos campos minados.
Os apelos para que não se vinguem também são sistematicamente ignorados, lamentou Paula Ghedini, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Refugiados. Ghedini calculou em 50 mil o número de refugiados que chegaram hoje.
As casas de sérvios e de ciganos, acusados de colaboracionismo (com a polícia sérvia) continuam sendo saqueadas e incendiadas em toda a província. Cerca de 3 mil ciganos deixaram hoje Pristina, com medo de represália. Na estrada de Pec, havia uma coluna de 150 automóveis, caminhões, ônibus e tratores, transportando 500 famílias (na maioria sérvios montenegrinos) em fuga para a Sérvia.
O regime de Belgrado acusou o comando da Kfor de assistir impassível ao drama dos sérvios de Kosovo. O general Clark prometeu combater com rigor os saques e pilhagens. Ele pediu à ONU envio urgente de 3 mil policiais internacionais, para restabelecer a ordem no território.
No sul do território, marines reagiram a um ataque e mataram um dos agressores. Segundo o Pentágono, nenhum fuzileiro ficou ferido.
No norte, um soldado italiano morreu em consequência do disparo acidental de uma metralhadora.
Pelo terceiro dia consecutivo, soldados sérvios armados, muitos deles bêbados, mantinham bloqueadas hoje estradas do centro da Sérvia, provocando grandes congestionamentos. Eles exigem o pagamento de soldos atrasados.
Em Paris, as autoridades francesas criticaram a decisão dos Estados Unidos de pôr a prêmio a cabeça de Milosevic, oferecendo US$ 5 milhões por sua captura. Para o governo francês, essa é uma "prática do Velho Oeste" em desuso há mais de cem anos.





