‘‘Eu falo que essa casa caiu do céu, e minha filha responde que casas não caem do céu. Mas caem sim.’’ A frase, que soa como um milagre às vésperas do Natal, refere-se a mais uma entrega de casas do programa Onde Moras. Desta vez, dez famílias foram agraciadas com as residências de 41 metros quadrados, localizadas no Jardim Nova Esperança (Zona Sul), em Londrina. ‘‘A casa devolve a essas pessoas a dignidade, e pode mudar de forma expressiva o perfil dessas famílias’’, avalia o coordenador do programa, Maurício Costa. Até agora foram concluídas 202 casas em dez anos de projeto. Outras 18 já estão em fase de construção, e, para 2007, a meta é construir mais mil casas.
  As unidades entregues na manhã de ontem têm um diferencial: desta vez, os terrenos (um total de 2 mil metros quadrados) foram doados pela Protenge Engenharia, o que permitiu beneficiar pessoas que ocupavam áreas em situação irregular. Vitor José Galão, sócio-proprietário da empresa, estima que a área total valeria cerca de R$ 50 mil, mas considera o investimento gratificante. Para o coordenador do Onde Moras, a iniciativa abre caminho para que outras empresas também contribuam.
  O programa Sinal Verde, que trabalha com crianças e adolescentes em situação de rua, ficou responsável pela seleção das famílias, escolhendo as residentes em Londrina há pelo menos cinco anos e que já vinham sendo acompanhadas. ‘‘Ter uma casa contribui para que essas crianças e jovens fortaleçam os laços familiares e o vínculo com a comunidade’’, avaliou a assistente social Sandra Coelho. O programa também conta com o apoio da Caixa, que destina R$ 8,5 mil do fundo perdido para cada casa.
  O casal Mariza e Kelvys Oliveira de Souza foi um dos beneficiados. Kelvys é cadeirante, e, morando com os três filhos em uma ‘‘caixa de fósforos’’, segundo Mariza, no União da Vitória 6 (Zona Sul), eles passavam por dificuldades para se manter. ‘‘Mesmo assim, veio toda a família lavar as telhas com prazer, porque era para a nossa casa’’, conta Mariza, lembrando que o programa prevê a participação voluntária de um membro de cada família na construção da casa.
  ‘‘Vou me mudar hoje mesmo pra cᒒ, informou Eliana de Fátima dos Santos, 48 anos, outra nova moradora, que vai poder deixar o barraco emprestado em um fundo de vale, no conjunto Hilda Mandarino, e passar um Natal com mais conforto. Ela conta que doou três dos seis filhos que teve por falta de condições de cuidar, e que um foi morto com 18 tiros há dois anos.
  A casa, para ela, é a chance de tentar evitar que o mesmo ocorra com o filho adolescente. ‘‘Ele prefere ficar na rua do que em casa, anda com más companhias, passa dias sem voltar. Eu sofro muito. Agora acho que ele vai melhorar’’, revela. Diarista desempregada, Eliana acredita que a casa vai ajudá-la inclusive a encontrar uma ocupação. ‘‘A gente tem vergonha de morar em fundo de vale, as pessoas ficam olhando, ninguém chama para trabalhar. Agora tudo vai mudar.’’

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