Buenos Aires, 09 (AE) - "Vocês terão Bioy Casares por muito tempo ainda". Infelizmente, a profecia feita pelo próprio Adolfo Bioy Casares ao sair do hospital há três semanas, não pôde ser cumprida. Na quinta-feira, pela quarta vez neste ano, Bioy Casares voltou a ser internado por problemas cardiacos, e não sobreviveu: ele faleceu nesta segunda-feira às 19h00 (horário local).
Entristecido, o escritor Ernesto Sábato declarou que lamentava "na alma" não poder dizer algo importante sobre a morte do autor de "A Invenção de Morel". Sábato disse que só tinha boas recordações para relatar, e que entre essas, estavam as das longas tertúlias que mantinha com Bioy Casares e sua esposa Silvina Ocampo.
"Eram longas conversas sobre a literatura, que às vezes eram muito sérias, mas que às vezes eram também irônicas, divertidas e grotescas". Sábato definiu as reuniões como "intermináveis" e surpreendeu com o comentário de que eram "detestadas" pela mulher de Bioy, Silvina.
A morte do prêmio Cervantes de 1990 e eterno candidato ao Nobel também repercutiu no âmbito político: o vice-presidente da Argentina, Carlos Ruckauf, afirmou que "partiu um grande homem das literatura argentina, da geração de meu pai e meu avô". Segundo Ruckauf, "sabíamos que Bioy estava indo embora, mas a ida definitiva é uma dor que todos sentimos".
O escritor Juan Ppablo Feinmann, um dos principais representantes da nova geração de escritores argentinos, afirmou que ao contrário de Sábato, Bioy Casares "nunca quis jogar o papel de velho oráculo da nação". Feinmann sustentou que o escritor "não ficou deslumbrado pela notoriedade e a estridência da mídia". Comparando-o mais uma vez à Sábato, afirmou que "Bioy Casares sempre continuou escrevendo".
"Foi um escritor que não se parecia com ninguém, de um talento sui generis" foi a definição encontrada pelo escritor mexicano Carlos Fuentes, que declarou que estava consternado pela morte de Bioy Casares.
Apesar da morte de um de seus maiores escritores nesta segunda metade do século, a TV argentina reagiu lentamente à notícia, à qual deu pouca cobertura. Os canais de notícias deram mais destaque à proibição da prostituição em Buenos Aires e à chegada do príncipe Charles para uma visita de três dias.
"O último gentleman da literatura", manchete do jornal "Página 12", talvez foi o título mais apropriado sobre a morte do escritor. Para o "Clarín", Bioy Casares foi "O inventor de sonhos". Segundo o "La Nación", "A Literatura perdeu um ilustre criador", e afirmou que "a literatura foi sua grande obsessão".
O corpo de Bioy Casares não foi velado, e foi enterrado esta tarde no cemitério de Recoleta, no panteão da família Casares.

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