Casal volta ao Canadá. Greve continua
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sábado, 21 de novembro de 1998
Malu Gaspar e Sílvia Corrêa Agência Folha 
A transferência dos dois sequestradores canadenses para seu país de origem começou na tarde de ontem, mas os outros oito presos pelo sequestro de Abílio Diniz prometem continuar em greve de fome pelo menos até terça-feira. A viagem de David Spencer e Christine Lamont começou as 18h10 de ontem, quando a canadense deixou o presídio feminino, no Butantã (zona sudoeste de São Paulo) e seguiu para o COC (Centro de Observação Criminológica), no Carandiru (zona norte). Os policiais que a escoltavam atropelaram quatro pessoas na porta do COC, onde o casal se reencontrou.
O grupo sequestrou o empresário Abílio Diniz em dezembro de 1989. O empresário ficou uma semana em cativeiro. A polícia o resgatou e prendeu dez dos sequestradores. Julgados, eles foram condenados a penas que variam de 26 a 28 anos por sequestro numa época em que ele não era crime hediondo e a pena máxima prevista era de 15 anos. A pena foi aumentada porque eles foram condenados por formação de quadrilha.
Desde o julgamento, em 1990, quando se sentaram lado a lado, Christine e Spencer não se encontravam pessoalmente. As visitas íntimas eram permitidas aos dez sequestradores. Só que a canadense não podia receber seu marido, porque ele estava preso e vice-versa. Nos últimos oito anos, os dois se comunicaram unicamente por cartas enviadas pelo correio ou por emissários. Só na quarta-feira e anteontem, falaram-se por telefone.
Christine disse ter ficado surpresa ao ouvir a voz do marido. A essa altura, ela nem lembrava mais e apenas imaginava como seria a voz de Spencer, disse Breno Altman, porta-voz dos presos.
O embarque do casal para o Canadá estava previsto para as 22h15 de ontem, com escolta de policiais canadenses durante o vôo. Quando chegarem ao destino, os dois continuarão presos, até que a Justiça local decida se têm direito ao regime semi-aberto - com liberdade durante o dia e pernoite na cadeia - ou à liberdade condicional.
A pedido da reportagem, Spencer escreveu ontem um bilhete relatando o momento de despedida do Brasil. O canadense afirmou que pretende retornar ao país, especialmente para passear no Nordeste.
Os cinco chilenos, dois argentinos e o brasileiro que continuarão presos no Brasil entram hoje no sexto dia da greve de fome. Está marcada para terça-feira a apreciação do pedido de progressão de suas penas pela Justiça paulista. Pelo menos até lá, eles prometem continuar sem comer.
O governo do Estado de São Paulo estuda agora qual o melhor lugar para manter os presos. As instalações da enfermaria da prisão onde estão os homens são inadequadas, na opinião do médico do COC, Ricardo Cypriani. Eles estão nas melhores condições possíveis, mas o mais adequado seria mantê-los num hospital. Cypriani disse ainda que não há camas para todos os presos na enfermaria. Dois deles estariam dormindo em colchões no chão. A reportagem apurou ainda que não há auxiliar de enfermagem para monitorar o estado de saúde dos presos.
No caso das duas mulheres, que estavam na Penitenciária Feminina do Butantã, o acompanhamento médico só passou a ser feito anteontem com a visita do diretor de saúde do Sistema Penitenciário de São Paulo, Paulo Cesar Sampaio. Por causa disso, não se sabe exatamente quantos quilos cada uma delas perdeu desde o início da greve. Os homens perderam até ontem mais peso que no mesmo período da greve anterior, que durou 16 dias.


