Os suspeitos de fraudes envolvendo documentos médicos descobertos pela Polícia Civil de Londrina cobravam entre R$ 50 e R$ 150 para emitir um atestado e deviam cobrar um valor ainda maior para emissão de receituários para aquisição de medicamentos controlados, destacou o delegado Thiago Vicentini.

Receituários e atestados têm timbres de clínicas e unidades de saúde públicas ou privadas
Receituários e atestados têm timbres de clínicas e unidades de saúde públicas ou privadas | Foto: Micaela Orikasa

Uma nutricionista e um estudante de farmácia de Londrina são suspeitos de venderem os atestados e receituários obtidos irregularmente. A participação de um terceiro suspeito também é apurada. Ele já era investigado no âmbito da Operação Espelho Falso, que apurou a contratação de profissionais para o HU (Hospital Universitário) por empresa terceirizada que fraudaria a cobrança de horas extras. Esse desdobramento é a terceira fase da operação.

Um mandado de busca e apreensão foi cumprido nesta sexta-feira (11), no Jardim Tropical (zona leste). A Polícia Civil apreendeu dezenas de atestados, celulares e um notebook. Um dos atestados estava com carimbo e assinatura de um médico já falecido.

Segundo Vicentini, as investigações, que começaram em março, indicam que os documentos vendidos pelo casal são verdadeiros e devem ter ser obtidos por extravios ou furtos para a revenda.

Os receituários e atestados têm timbres de clínicas e unidades de saúde públicas ou privadas. "[Entre o material apreendido] tem receituário de controle especial, receituário de controle social tanto da Sesa (Secretaria Estadual de Saúde) quanto de algumas unidades de saúde. Tem, inclusive, blocos inteiros e todos de médicos existentes, possivelmente com carimbo e assinaturas falsificadas", afirmou Vicentini.

Um dos envolvidos na Operação Espelho Falso repassaria os documentos e intermediava pessoas que compravam os atestados médicos para fugir de compromissos ou de receitas médicas para aquisição de medicamentos controlados.

"Em um primeiro momento, verificamos a elaboração de atestados para justificar ausências de uma servidora municipal e de uma advogada, mas ainda estamos em fase de análise. Considerando que eles atuam desde 2017, acredito que será uma quantidade inimaginável (de pessoas)", disse o delegado.

Com os materiais em mãos, a Polícia irá investigar quais são as pessoas que foram alvo do trio. Essa identificação é possível porque em alguns atestados estão discriminados quem seriam seus portadores. "Essas pessoas serão identificadas na medida do possível e também responsabilizadas na medida de sua culpabilidade. Faremos ainda contato com os profissionais médicos e vamos analisar as mídias apreendidas que eram de uso do casal e possivelmente vamos encontrar mais elos".

A Polícia Civil informou que o rapaz confessou a prática e eximiu a companheira de culpa. "Mas nas conversas telefônicas que foram monitoradas pode-se verificar que a mulher tinha conhecimento e arrecadava clientela para tal finalidade."

Segundo o delegado, o trio irá responder por crimes contra a fé pública, associação criminosa e, a depender, crimes contra a saúde pública. "O prejuízo é tanto para os médicos na sua fé pública, na sua imagem, quanto para os entes estatais como município e o Estado do Paraná. É um uso indevido da máquina pública e que gera consequências catastróficas. Um cidadão que sequer tem formação ministra a bel-prazer medicamentos controlados. Temos receituários numerados e aí vai ser muito fácil identificar se houve o dolo ou se tratou de mero extravio. Isso pode gerar morte, gerar um problema de saúde tanto individual quanto público", pontuou Vicentini.

HISTÓRICO

A investigação desta sexta-feira foi um desmembramento da operação deflagrada em março deste ano, que apura desvio de R$ 1 milhão no HU de Londrina. Neste caso, o inquérito ainda não foi fechado. Segundo Vicentini, falta a conclusão da autoridade policial sobre as provas que foram constituídas. A expectativa do delegado é concluir o inquérito até novembro.

OUTROS INQUÉRITOS INVESTIGAM MÉDICOS

A Polícia Civil instaurou outros inquéritos em decorrência do caso, inclusive para investigar médicos. "São para investigar fatos diversos, médicos que teriam trabalhado em dois lugares ao mesmo tempo para fins de registro, mas atuavam de fato em um só. Esse inquérito ainda está em andamento." A reportagem pediu posicionamento ao HU, mas não obteve resposta. (Colaborou Isabela Fleischmann)

(Atualizada às 15h)

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