Derince, Turquia, 19 (AE-AP) - Por apenas um instante, ele pensou que estava sonhando.
A cama na qual dormia escorregou no chão inclinado e caiu na escuridão. Segundos depois, Kemal Yildirim e sua mulher mergulharam três andares e com as mãos evitaram que a cama batesse neles. O casal parou no chão despedaçado da cozinha de alguém. A cama prendeu-se contra um canto e parou logo sobre eles, criando um pequeno calço de segurança enquanto os destroços se empilhavam em cima.
"Esperávamos ser esmagados a qualquer momento", disse hoje Kemal. "Achamos que eram nossos últimos suspiros".
Mas a estrutura da cama suportou. Por cerca de 40 horas, o casal gritou, rezou e tentou esquecer uma sede corrosiva até que sentiram uma lufada de ar fresco e apareceu a mão de um integrante de uma equipe de resgate.
"E nós retornamos ao mundo, nosso pequeno lugar nas ruínas era alguma outra coisa - um túmulo para os vivos", afirmou Kemal.
Nos aterrorizantes segundos de um poderoso terremoto - como o que arrasou o ocidente da Turquia na terça-feira - sorte ou tragédia são decididos pelo aleatório estilo de destruição. Um muro ou um armário podem esmagar ou proteger, dependendo de como cai. Um teto desaba com força mortal; outro, de alguma forma, deixa um espaço vital.
Na Rua Kanya Caddesi 59, uma cama de madeira de 30 anos impediu que toneladas de concreto esmagassem o casal quando o terremoto surgiu às 3h. Por cerca de meia hora, o casal não ousou se mexer. Os escombros em forma de V do prédio de quatro andares rugiam e estalavam enquanto se acomodavam. Uma cascata de água caia dos canos partidos.
O espaço era suficiente apenas para eles se arrastarem um metro, disse Kemal. Impressionantemente, Kemal e sua mulher, Bahrige, sofreram apenas arranhões. Ambos são aposentados de fábricas na Alemanha e estavam em visita à cidade.
Seus primeiros gritos não foram por socorro, mas para chamar outros dormindo no apartamento: o filho deles, a mulher deste e o neto deles de nove anos. Ninguém respondeu - nem os familiares
nem os vizinhos.
Mais de duas dúzias de pessoas podem ter estado no prédio, um bloco de apartamentos comum construído no início dos anos 70.
"O pior era o silêncio", disse Kemal, 59 anos. "Para nós, significava morte". Mas eles tentaram se convencer de que talvez outros haviam escapado. Eles se revezaram nos gritos por ajuda.
Ao amanhecer, eles puderam ouvir veículos chegando à cidade, nas proximidades do epicentro do terremoto, 150 km a sudeste de Istambul. Fachos de luz chegarem neles através das ruínas. Eles começaram a afastar cuidadosamente alguns escombros em volta deles em busca de mais espaço.
Então, vieram os tremores secundários, alguns fortes o suficiente para balançar algumas placas de concreto sobre ele.
"Cada vez que a terra tremia, nós apenas dávamos as mãos e rezávamos", disse Kemal.
Pouco antes do anoitecer de quarta-feira, equipes de resgate retiraram um bloco de concreto e ferro, e algumas mãos alcançaram o casal.
Mas a alegria deles durou pouco. O resto da família ainda estava desaparecida.
Kemal sentou-se com dezenas de outros e passou a observar escavadeiras afastar escombros. O cheiro de corpos em decomposição começou a exalar de outros prédios da rua. Sua mulher não pôde ficar olhando. A esperança dela acabou, e ela já estava chorando seus mortos.

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